28 de setembro de 2008

Energia, Alimentos e Sustentabilidade.

 Durante a era Reagan os Estados Unidos armaram a arapuca da "Guerra nas Estrelas" que induziu militaristas russos a forçar maciços desvios de investimentos dos setores produtivos para os aplicar na indústria bélica, do que resultou colapso da economia e, como conseqüência, dissolução da União Soviética. Após o governo Reagan constatou-se que tudo não passara de tremendo blefe. É claro que outros fatores contribuíram para o fim da URSS, inclusive a corrupção interna do Partido Comunista, podridão que se revelou de forma explosiva na transição para a economia de mercado, mas o efeito da cartada de Reagan foi decisivo na desorganização e ineficiência econômica e na insustentabilidade política.

A China e os Estados Unidos provavelmente não chegarão a colapso político semelhante, mas encontram-se à beira de seriíssima convulsão econômica decorrente da ineficiência na geração e uso de energia. A atual dificuldade no setor imobiliário estadunidense é uma das múltiplas manifestações dessa ineficiência. Por algumas estimativas, a China, além de já haver atingido o posto de maior poluidor do planeta, é também um dos mais ineficientes produtores e utilizadores de energia e, embora tenha oficialmente lançado ambicioso plano de redução na intensidade de uso de energia, os resultados práticos até agora são irrelevantes. Este país se arrasta atrás dos paises mais industrializados no que diz respeito à eficiência. O setor industrial absorve mais de 70% da grade energética e a economia chinesa cresce em taxas tão elevadas que as pequenas melhorias obtidas na eficiência ficam plenamente neutralizadas pelo crescimento do volume.

Uma comparação simplista do uso de energia nos mostra que, ao câmbio e preços de 2005, para cada cem dólares despendidos pela China com o uso de energia na formação do produto interno bruto (PIB), os Estados Unidos gastariam 25, o Reino Unido 17 e o Japão apenas 13. Isto significa que, para cada dólar de PIB gerado, a China consome 35.766 BTUs, os Estados Unidos 9.133, o Reino Unido 6145 e o Japão 4.519 (um BTU é a quantidade de energia necessária para elevar em um grau Fahrenheit uma libra de água). Incrivelmente, há países ainda mais ineficientes, como a Rússia e outros órfãos da União Soviética. A Ucrânia despende mais de 138 mil BTUs para gerar cada dólar de seu PIB.

O Brasil é o décimo maior consumidor mundial de energia, o terceiro maior no Hemisfério Ocidental, atrás dos Estados Unidos e Canadá. A grade brasileira de consumo energético é composta de 48% de petróleo e etanol, 35% de hidroeletricidade, 7% de gás natural, 5% de carvão mineral, 2% de biodiesel e outros renováveis, e 1% de energia nuclear.

O Japão junto com a Dinamarca são os países mais eficientes na utilização de energia. Com os altos custos da energia e com tamanha ineficiência, não há economia que resista e não é por outro motivo que a China se lançou no projeto de construção da maior hidroelétrica do Planeta. Este é enorme, embora um dos poucos, investimento estatal no setor. Os investimentos privados chineses são limitados pela falta de um mercado financeiro mais sofisticado. Embora a China possua reservas crescentes que se aproximam dos dois trilhões de dólares o mercado financeiro é tão incipiente que não é capaz de suprir as necessidades do setor energético privado do país.

Os Estados Unidos despendem cerca de um décimo de seu produto interno bruto para abastecer de energia suas casas, automóveis e caminhões, fábricas, edifícios de escritórios, centros comerciais, aparelhos sem conta e tudo o mais que ajuda a constituir e manter sua civilização com eficiência medíocre. Um trilhão por ano – o custo estimado de toda a guerra no Iraque até agora - é muito dinheiro, mesmo com dólar desvalorizado. Um pouco de eficiência reduziria esse gasto pela metade.

A sociedade estadunidense tem sido perdulária em muitos sentidos, edificações amplas, consumidoras de materiais de construção e com grande dispêndio de eletricidade para iluminar, aquecer no inverno e esfriar no verão, carros grandes e pesados, consumidores de aço, tinta, borracha e com grande dispêndio de combustível para se moverem, muita roupa, muita comida e enormes quantidades de lixo. Os Estados Unidos importam mais de sessenta por cento de suas necessidades de energia e empurram os preços do petróleo para a estratosfera, encarecendo não apenas a sua, mas a economia global, afetando a todos os países com enorme prejuízo para as nações pobres.

Esta sociedade perdulária, como não poderia ser diferente, gera uma classe política que reflete essa cultura do desperdício e age irresponsavelmente como se tudo estivesse às mil maravilhas. É possível que muitos políticos influenciados pela industria petrolífera, em proveito desta, propositalmente adotem posturas legislativas contrárias a praticamente tudo que possa fazer essa sociedade se tornar mais eficiente no uso da energia de que dispõem e na busca de fontes alternativas.

Nas últimas décadas o Congresso dos Estados Unidos barraram a construção de usinas nucleares, de novas e mais eficientes refinarias de petróleo, de portos de gás natural, de campos de geradores eólicos de eletricidade, exploração de petróleo em águas marinhas no Alasca, na Califórnia e na Flórida, o financiamento de pesquisa energética, retardando o estabelecimento de padrões de eficiência mais rígidos no uso de combustíveis automotivos e, ainda por cima, impuseram taxa de importação sobre o barato e limpo etanol de cana de açúcar brasileiro e incentivaram a produção de etanol de milho que provocou carestia nos alimentos que dependem dessa matéria prima.

Os processos comerciais atuais de produção de energia de biomassa nos Estados Unidos, que se concentram no Cinturão do Milho, no Meio Oeste, sofrem fundadas críticas pelo brutal encarecimento dos alimentos que provocam. Com investimentos relativamente pequenos o milho poderia ser substituído pelas novas perspectivas que se abrem para fontes de matéria prima não alimentícias tais como capim nativo, cavacos e briquetes de madeira e resíduos florestais.

Se o maior consumidor de energia do mundo continua com o desperdício e seu ambicioso seguidor, a China, vai no mesmo caminho, com ineficiências ainda maiores, e outras nações atingem o limiar das sociedades de consumo, como a índia, não há como evitar a escalada dos preços do petróleo. Os custos de produção são cada vez maiores por exigirem tecnologias cada vez mais avançadas e mais caras: exploração em águas profundas, perfurações horizontais e direcionais e outros. Mas o pior de tudo é o estado de guerra permanente do Oriente médio onde se concentram as maiores reservas globais de petróleo. O Iraque ainda está longe de retornar ao auge da produção dos tempos de Hussein, o Iran vive em estado permanente de beligerância, Israel, Líbano e Palestina são uma mistura explosiva e tudo isto representa ameaça, não apenas á continuidade da produção, forçada ou voluntária, também a do transporte do precioso líquido.

Uma usina termoelétrica comum, alimentada por carvão, gás ou petróleo é ineficiente por natureza, transformando em eletricidade apenas trinta por cento da energia contida no combustível e jogando na atmosfera o restante sob a forma de calor e toneladas de CO2. Se a energia térmica fosse utilizada, quer para o pré-aquecimento da água que alimenta as turbinas, quer para outras formas de aproveitamento, a eficiência poderia atingir oitenta por cento.

Os esforços atuais em busca de fontes alternativas se mostram insuficientes, embora haja casos exemplares e elogiáveis. Por exemplo, grades energéticas já são atendidas por fontes alternativas em 40% na Dinamarca e 14% na Alemanha. Porém, a maior parte de tudo o que se produz de energia renovável, ou se pretende produzir em futuro próximo, está muito longe de exercer efeitos perceptíveis no deslocamento de combustíveis fósseis emissores de carbono. A menos que ocorra alguma importante quebra de barreira tecnológica, todas as fontes de energia renovável necessitam crescer de modo extremamente rápido para qualquer efeito notável nas questões de energia limpa e mudança do clima.

Além dos efeitos econômicos, a ineficiência no uso de energia exacerba os nocivos efeitos dos gases de efeito estufa, as alterações climáticas e a insuportável poluição que torna o ar irrespirável em Pequim, São Paulo e outras metrópoles. Mas o problema não fica circunscrito aos grandes consumidores e maiores poluidores, todos os paises são ineficientes e muitas das soluções provocam efeitos secundários danosos seja ao meio ambiente, seja no encarecimento dos alimentos. Estamos diante de grande encruzilhada entre o indispensável uso de energia, a imediata satisfação das necessidades alimentícias e a sustentabilidade do Planeta.

Petróleo mais caro não significa apenas gasolina mais cara, significa que todos os derivados que servem de insumos para uma pletora de indústrias ficarão mais caros, inclusive os insumos agrícolas, do que decorre alimento mais caro para a humanidade.

A solução para essa terrível ameaça que já se manifesta de modo tão agressivo poderia advir de duplo esforço, um no sentido de se obter melhores índices de eficiência na geração e no uso da energia, outro no de desenvolver fontes de energia renovável.

A luz solar que atinge a Terra em apenas uma hora contém suficiente energia para abastecer toda a população humana durante um ano. Isto é potência equivalente a dez mil milhas cúbicas de petróleo. "Milha cúbica de petróleo" é uma aproximação grosseira do consumo mundial anual do produto, algumas vezes utilizada para comparações com fontes alternativas de energia, tais como solar, eólica, geotérmica e de biomassa. Para suprir o equivalente a uma milha cúbica de petróleo seriam necessárias 4,2 bilhões de placas captadoras de energia solar de telhado ou três milhões de turbinas eólicas, ou 2.500 usinas termo-nucleares ou 300 hidroelétricas de Itaipu. Até a pouco não tínhamos tecnologia adequada para captar toda essa energia a custos economicamente viáveis. Os preços atuais do petróleo e os que se prevêem em futuro próximo tornam realizável essa perspectiva.

Embora o Brasil não seja tão bem aquinhoado em energia eólica, está entre os mais abençoados com abundante insolação, recursos hídricos, potencial hidroelétrico, solo fértil e florestas. Seria crime contra a humanidade não colocar esse potencial a serviço da reversão do efeito estufa e da estabilização do clima, mesmo ao custo de concessões razoáveis ao rigor na proteção ambiental. A menos que se trate de aberrações ecológicas, os ganhos ambientais seriam enormes. Eis algumas áreas onde se deveria atuar com vigor e decisão em termos de melhoria da eficiência na geração e uso e na produção de energia renovável, não apenas em nosso país, mas em todo o Planeta.

1 - Na melhoria da eficiência: O transporte público deveria oferecer vantagens econômicas e de comodidade sobre o uso de automóveis particulares. A energia térmica gerada por diversas fontes deveria ser aproveitada para aplicações diversas inclusive alimentando termoelétricas. A rede pública de distribuição elétrica deveria receber e compensar economicamente os excedentes da produção particular, inclusive a residencial, incentivando o uso de milhões de pequenos geradores solares, eólicos e hidroelétricos. Os equipamentos deveriam mostrar, de forma padronizada, o índice comparativo de eficiência energética em relação a padrões pré-estabelecidos.

2 - Na geração de energia: Com as raras exceções de viabilidades econômica ou ambiental, todo o potencial hidroelétrico deveria ser aproveitado. As regiões desérticas deveriam ser extensivamente aproveitadas como campos de captação de energia solar e as sombras dos equipamentos utilizadas na tentativa de desenvolver vegetação. Campos de moinhos de vento para geração eólica de eletricidade deveriam ser implantados onde houver condições adequadas. O metano, proveniente dos dejetos dos criatórios e dos aterros sanitários, deveria ser extensivamente aproveitado na geração de eletricidade. O mercado de carbono deveria ser simplificado e popularizado pela diminuição dos emperramentos burocráticos da ONU.

3 - Na geração de biomassa energética: Além da já bem estabelecida indústria de etanol proveniente da cana de açúcar, outras fontes deveriam ser pesquisadas. O desenvolvimento do biodiesel ainda é incipiente e irrelevante na substituição do diesel de petróleo e deveria receber investimentos adequados para pesquisa cientifica e tecnológica. Lenha, cavacos, briquetes, aglomerados de liteira (material orgânico no chão das matas) e muitas outras formas de aproveitamento da biomassa das florestas e da agricultura deveriam ser pesquisados e desenvolvidos comercialmente. Lenha e carvão têm sido coibidos para combater o desmatamento; no entanto são importantes fontes energéticas e deveriam ser melhor desenvolvidos tecnologicamente e incluídos nos planos de manejo florestal e nas grades energéticas dos paises onde haja viabilidade técnico-econômica.

Um ponto importante a ser considerado é como e onde desenvolver tais fontes em melhores condições. Óleo, gás e hidroeletricidade são produzidos apenas nos lugares de ocorrência, conseqüentemente, os possíveis. Disponibilidade e custos de captação são coisas totalmente regionais. No Texas, por exemplo, embora haja planos para implantação da maior fazenda de moinhos de vento do planeta, as mais poderosas fontes potenciais de energia eólica dos Estados Unidos, passos de montanha e topos de colinas desse estado, permanecem desaproveitadas. A maior parte dos territórios das Américas entre os Estados Unidos e o Brasil, dos países mediterrâneos, da África, Oriente Médio, Sul da Ásia e Austrália, é grandemente propícia ao aproveitamento da energia solar. Grande parte dos mesmos territórios é convidativa à produção de biomassa.

Todas estas formas de energia, que hoje são alternativas, mas em breve se tornarão importantes concorrentes da energia fóssil, exigem grandes investimentos, no entanto, pouco esforço estatal seria necessário uma vez que os altos preços do petróleo as tornam cada vez mais competitivas e suficientemente atrativas para a iniciativa privada, desde que a burocracia ambiental ortodoxa não emperre os projetos industriais.

Produção e uso de energia e de alimentos estão intimamente vinculados. Abundância de energia barata, resultante da melhoria da eficiência e do desenvolvimento de fontes alternativas, resultará em maiores quantidades de alimentos mais baratos e, consequentemente, em melhor bem estar para toda a Humanidade. E, é claro, na sustentabilidade do Planeta.

2 de setembro de 2008

A utilidade de um bebê

Carl Sagan, em Broca's Brain, Reflexions on the Romance of Science (Ballantine Books, 16th Edition, 1990, pg. 38), narra a visita da rainha Victoria, em meados do século XIX, ao laboratório de pesquisas físicas de Michael Faraday. Entre as múltiplas descobertas do celebrado físico, em grande parte um auto-realizado cientista, sua majestade encontrou alguns dispositivos de óbvia aplicação prática e outros de finalidade desconhecida, simples curiosidades de laboratório. A rainha perguntou que utilidades tinham tais pesquisas, ao que Faraday respondeu: "Senhora, qual a utilidade de um bebê?"

Quando uma descoberta surge, é como um bebê cujo futuro é completamente desconhecido. Ninguém sabe no que o novo pequeno ser pode se converter, num Capone ou num Einstein.

No mesmo capítulo, Sagan discorre sobre como James Clark Maxwell, elaborando sobre as pesquisas de Faraday, desenvolveu quatro equações matemáticas relacionando cargas e correntes elétricas com campos magnéticos e elétricos, com as quais ficou insatisfeito pela falta de simetria que as tornava deselegantes. Para compensar este efeito, de forma intuitiva e pouco científica, porque sem comprovação experimental, Maxwell propôs que uma das equações deveria ter um termo adicional que ele denominou de corrente de deslocamento, o qual implicava a existência de radiação eletromagnética, o que inclui raios-X e gama, irradiação de ondas de rádio, de luz ultravioleta, infravermelha e visível, que induziram Einstein ao estudo que conduziu à teoria da Relatividade Especial.

Seria impossível, na época de Faraday e Maxwell, prever ao que levariam, cem anos depois, aquelas pesquisas elementares em eletricidade e eletromagnetismo. O mundo de hoje, a vila global em que nos transformamos, se tornou possível pelos avanços tecnológicos nesses campos do conhecimento humano.

O valor econômico e social da modernidade tecnológica é incomensurável diante do dispêndio original na pesquisa científica básica, por maiores que parecessem ter sido na época. O retorno do investimento em pesquisa científica no início do século XX se apresentava de uma a três gerações posteriores. Hoje, com ajuda de hardware e software computacionais, esse retorno se faz de modo muito mais rápido. É certo, que nas ciências biológicas, nas médicas de modo especial, por obediência a regras de segurança, os resultados práticos se apresentam de forma um pouco mais lenta, mas a rapidez do retorno é cada vez mais acelerada.

Isto significa, como conseqüência política, que a prioridade do investimento nacional se deveria concentrar em duas frentes da maior importância: educação básica de excelente qualidade e pesquisa científica e tecnológica. A primeira formaria o manancial revelador de futuros cientistas; a segunda formaria o cabedal de conhecimentos propulsor do desenvolvimento autônomo de nossa sociedade, não isolada do resto do mundo, mas dele participando como contribuinte e parceiro efetivo.

Esta reflexão tem nexo com a mais que oportuna criação da Universidade Federal do Pará d'Oeste, que se apresenta como futuro centro de pesquisas científicas amazônicas. Pará d'Oeste, e Santarém, em particular, já constituíram o principal centro de pesquisas em nosso país. Este trabalho, desenvolvido pelo LBA, foi extremamente frustrante pelos fracos resultados científicos, em grande parte devido à falta de publicação dos trabalhos científicos, acredito que mais por malícia, mas também por se tratar de pesquisas descasadas com os interesses econômicos e sociais amazônicos. Essa lacuna promete ser preenchida pela nova universidade.

Alguns pensam, e eu concordo, que a pesquisa deva ter seu principal compromisso com o conhecimento e com a verdade científica e, apenas secundariamente, com interesses utilitários, de natureza econômica ou social. Mas eu também gostaria de pensar, a respeito de um centro de pesquisas amazônico, que um pouco de comprometimento com as necessidades mais fundamentas dos povos da Amazônia possam ter alguma prioridade como objeto de pesquisas.

25 de agosto de 2008

Dilema de Esmeraldo

Amigos viram este artigo e todos me aconselham a não atiçar o ódio da Igreja. Acho que não é o caso. Minha intenção é provocar reflexão, não ódio. Além do mais, ódio não é sentimento de cristãos, a quem endereço estas palavras. Se me odiarem é porque são o que são, não por serem cristãos. Sou apenas o que assiste o desfile do rei vestido em sua roupa invisível e, enquanto acólitos aplaudem, ele aponta: “o rei está nu”.
Dom Esmeraldo informa a seleto grupo eclesiástico e laico as dificuldades financeiras de sua diocese, a crítica situação e sobrevivência ameaçada da Rede Vida e da Rádio Rural, lamenta que seu pedido a benfeitores alemães fora gentilmente negado e pergunta aos circunstantes o que fazer?
Talvez eu não tenha resposta positiva à pergunta do senhor bispo, mas certamente sei o que não pode fazer. Que Esmeraldo não cometa o erro de Lino, seu antecessor.
Dom Lino, numa postura odiosa, arrogante, intransigente, enviesada, preconceituosa, carente de caridade, por isso mesmo anticristã, ordenou a seus captadores de recursos que não procurassem nem recebessem donativos da Cargill e de sojeiros.
Pior, Dom Lino foi deselegante e ofendeu a senhoras católicas criadas na fé cristã e na obediência à Igreja, que o procuravam para pleitear tratamento mais caridoso do que as injustiças que receberam de setores ideológicos radicais desta diocese pelo simples fato de serem mães, esposas e filhas de agricultores, pessoas de bem, trabalhadores, honestos e religiosos, tanto de Santarém quanto os que para cá vieram atraídos por boa expectativa econômica.
Algumas destas senhoras buscaram minha colaboração em memorial que enviariam ao papa. Não fui de boa ajuda. A indignação, que minhas palavras expressavam, discordava da humilde postura de fieis que se recusam a ser enérgicas perante padres, bispos ou papa. Não sei se enviaram tal documento, nem se João Paulo o leu ou tomou qualquer providência. Sei que elas continuam a freqüentar missas dominicais e comungar regularmente. Duvido, porém, que seus maridos contribuam financeiramente ou anunciem na Rádio Rural.
Não sei qual a diferença ética, moral, religiosa ou política entre agricultores pelo fato de cultivarem trigo, milho, arroz ou soja. Ou entre estes e criadores de gado, aves, suínos ou peixes. Sei que eles ajudam a alimentar a mim, a Esmeraldo e a Humanidade. Sei que não há diferença entre o dinheiro deles, que compra as mesmas coisas. Sei também que foi um agricultor, criador, armador e empresário que financiou os vitrais que ornamentam a catedral de Santarém, assim como, ele e outros, ao longo de décadas, doam novilhas e bezerros leiloados nas festas da Padroeira, com o que todos os bispos que antecederam Esmeraldo – e, estou certo, ele próprio – sempre se mostraram muito felizes.
Ao longo dos séculos, Santas Casas foram erigidas e mantidas por doações generosas de pessoas de posses, até que estas se sentissem discriminadas e ofendidas e cessassem o patrocínio, ou se sentissem em ambiente mais cristão na Universal. Pessoas de posses... Jesus não teve pejo em aceitar convite para banquete de casamento em casa de pessoa de posses, pois foi este o local que escolheu para seu primeiro milagre. Foi pessoa de posses que cedeu o próprio túmulo para que Jesus, o pobre que não tinha onde cair, após degradante morte na cruz, fosse untado com suntuosos óleos, envolto em ricos tecidos e sepultado com dignidade.
A distribuição da riqueza pode ser injusta e, quando o seja, deve ser aperfeiçoada. Mas não há alternativa para a pobreza senão a criação de riqueza. A riqueza é um bem, por ser libertadora, enquanto sua má distribuição é um mal, por injusta, e a pobreza mal maior, por escravizante. Isto é realidade econômica, fato social e verdade ética. Demonizar o bem é irracional e ineficaz.
A Rádio Rural, para a qual por muitks anoq minha mãe escreveu crônicas sobre matéria de fé e vocação sacerdotal, já prestou bons serviços à nossa comunidade. Hoje, é péssimo veículo publicitário e seus reduzidos anunciantes continuam mais por doação gratuita do que pelo retorno da publicidade.
A Rede Vida é pior ainda. Quando a diocese de Santarém se propôs a implantar aqui a Rede Vida, procurou pessoas de posses em busca de apoio moral e financeiro. A Rede Vida foi implantada. Na época, foi proposta, e muito mal interpretada, a criação de conselho editorial que sugerisse temas para tornar a audiência da emissora atraente aos anunciantes. A auto-suficiência nunca foi boa conselheira, muito menos o preconceito e o viés ideológico xiita.
Quando a Rádio Rural precisou de novos transmissores, Edilberto Sena foi à Holanda pedir a pessoas de posses o dinheiro necessário. Pois pessoas de posses da Holanda, lá como aqui, podem ser católicos e generosos, mas podem também, como na Alemanha, e lá como aqui, cansar de ser enganados, ofendidos, discriminados, alijados do convívio cristão por ativistas ideológicos, travestidos de clérigos, propagadores de crenças esdrúxulas e anacrônicas que nada têm a ver com a fé cristã nem com os tempos correntes.
Antigos benfeitores certamente continuarão, a contragosto, apenas por compromisso de fidelidade a Cristo, a freqüentar miscas dominica)s e cnmungar freqüentemente, manter a pratica da fé, mas recusar a contribuir para destinos enganosos o dinheiro do qual se sentem extorquidos. Pois não é dinheiro aplicado em obras pias, templos, Santas Casas, asilos, educandários, mas em política ideológica e ridåculas marchas contra ALCA, Alcoa, Bush e Cargill, contra sojeiros, contra globalização, quixotescamente, contra um monte de coisas, reais e imaginárias. E, agora, preconizando inconstitucionalidades contra candidatos que tem direito ao benefício da dúvida e à defesa plena até que seus processos transitem em julgado, pois o mal não está em que sejam julgados, mas na demora do julgamento.
Hoje, a Igreja faz quase tudo, quase nada a favor do que realmente importa e pertence à religião. A Igreja Católica Apostólica Romana destas bandas latinas perdeu seu objeto, abandonou a religião pela ideologia. A Igreja perdeu seu destino, perdeu Cristo.
Certamente, voltando para Cristo, terá o necessário para suas obras. O Senhor provê, mas por intermédio daqueles que dispõem do que oferecer, como ricaços holandeses ou sojeiros daqui mesmo.

19 de agosto de 2008

Meia lágrima por uma árvore

Bem no meio da Rua dos Artistas, defronte da Praça São Sebastião - tem outro nome, eu sei - há uma frondosa mangueira, vetusta, majestosa, elegante. Foi plantada há mais de oitenta anos por Marcolina Ayres da Silveira, mãe de minha mulher, Nancy. No "Trevo da Calcinha", encontro da Travessa Inácio Correa com a Avenida Adriano Pimentel, há uma pequena mangueira, juvenil, mimosa, também elegante. Foi plantada há uns quinze anos por Ney Imbiriba, meu irmão. Pela cidade toda, há belas árvores plantadas por pessoas comuns, como eu e você, que amam a natureza e apreciam o frescor de uma sombra num dia de sol abrasador.

Na Avenida Marajoara havia vinte e duas mangueiras cuja beleza enfeitava e humanizava a aridez da poeirenta via, cujos frutos faziam a alegria da garotada e cuja sombra amenizava a canícula deste clima equatorial. Foram plantadas por moradores daquela avenida, pessoas comuns, como eu e você, que amam a natureza e contribuem voluntariamente para fazer desta cidade um lugar bom para se viver. Todas estas pessoas merecem consideração, reconhecimento. Merecem respeito.

O povo de Santarém não merecia tal bofetada, ofensa tão rude. Já havia um precedente odioso que todos desejavam que jamais se repetisse, o crime do Elmano, o pérfido interventor, abatedor de mangueiras.

Infelizmente, num lapso imperdoável, hediondo crime foi cometido a céu aberto, diante de populares atônitos e incrédulos, filmado pela TV, visto pelo Mundo. Dezenas de belas mangueiras enfileiradas no eixo central da Avenida Marajoara foram abatidas, mortas, assassinadas.

Tratores enormes arremeteram contra árvores indefesas, inocentes vítimas da incompetência, da desfaçatez, da absurda falta de sensibilidade, da distorcida ganância eleitoreira, do absurdo descompasso com as mais simples e comezinhas idéias ambientais. Qualquer criança de pré-escola aprende o valor das árvores, de como elas devem ser cuidadas, preservadas e amadas. Os assassinos de aluguel não tiveram piedade. Cumpriram fielmente o que os mandantes do crime ordenaram. E tudo isto por um falso benefício, inatingível pelo erro do método: compra de votos por asfaltamento de última hora.

Muitos erros foram cometidos, a começar pela postura indefesa dos moradores que, apanhados de surpresa, não se atiraram de encontro às máquinas assassinas, não ergueram barreiras com seus corpos, não envolveram as mangueiras com seus abraços, não impediram que o crime fosse cometido, não protegeram as árvores que plantaram e regaram com as próprias mãos. Alguns residentes da Marajoara foram condicionados pelo ativismo político manipulador que institui associações de moradores à sua feição para que falsamente legitimem seus escusos interesses. Foram enganados e se tornaram cúmplices do bárbaro crime.

A Secretaria de Infra-estrutura confessa, com argumentação pueril, que não planejara a obra de asfaltamento, por isso mesmo não previra canteiros e ilhas de proteção das árvores e prevenção de acidentes. Na pressa de completar a obra eleitoreira, ordena o injustificável crime, contrata os assassinos e põe por terra o intento imoral. Em lugar de votos recebe a repulsa de um povo indignado. Se os responsáveis queriam ajudar a patroa deram com burros n'água e colhem frutos da incompetência e da falta de ética.

O Instituto Sócio-ambiental se apresenta aos olhos do público como entidade apática, displicente, alienada do governo a que pertence, sem vez e sem voz. A ideologia ecológica que deveria permear toda a estrutura governamental simplesmente não existe, ninguém obedece aos princípios mais elementares da sustentabilidade ambiental. O ISAM não se respeita e ninguém respeita o ISAM. Não houve vigilância. O ISAM não cumpriu seu papel.

De tudo isto resta imensa tristeza, desconsolo profundo, maiores do que a revolta e a indignação pelo crime cometido e por comprovar que pessoas que tiveram minha consideração não merecem respeito.

Meu pranto indignado chora seco meia lágrima por árvore abatida.

12 de agosto de 2008

Alforria

Na página 89 da edição de março de 2007 da Revista de História da Biblioteca Nacional, encontrei notícia de carta da alforria passada pelo jovem proprietário de uma escrava. A incongruência e imoralidade de uma sociedade escravista me fazem usar palavras do alforriante ao transformar drama em poesia.

Alforria

 

Neste ano da Graça de 1869,

Perante o Notário

Da comarca de Campinas,

Província de São Paulo,

Digo eu,

Isidoro Gurgel Mascarenhas,

Que, entre os mais bens que possuo,

Sou senhor

E possuidor

De uma escrava,

De nome Ana,

Que herdei de meu pai,

Lucio Gurgel Mascarenhas.

 

E, como a referida escrava é minha...

Verificando-se minha maioridade, hoje,

Pelo casamento, de ontem,

Por isto achando-me com direito,

Concedo à referida...

Plena liberdade,

A qual concedo de todo meu coração,

Pois que, Ana, escrava minha,

Que foi de meu pai,

É também... minha Mãe.

 

5 de agosto de 2008

Turismo – Foco no essencial

Ao procurar outro documento, encontrei por acaso palesras do Encontro Nacional dos Convention e Visitors Bureaux realizado em Brasília, nos dias 15 e 16 de setembro de 2005, com ênfase no Programa Excelência em Gestão de Turismo de Eventos. Entre as palestras, a de Rui Carvalho, uma das cabeças pensantes do turismo no Brasil, que conheci quando ele era executivo do bureaux de Campinas.

O que considero importante não são as palestras, mas o tema: Eventos. E é isto que me traz a escrever novamente sobre esta minha paixão: Turismo.

As ações do corpo institucional de governo dedicado ao turismo, Ministério, Secretarias estaduais e municipais, Embratur e outras agências semelhantes, com apoio do Sebrae e suas similares, tem papel importante na estruturação e aperfeiçoamento da atividade turística. No entanto, como não poderia deixar de ser, tratando-se de orgãos oficiais ou para-oficiais, suas ações possuem os entraves da mentalidade e da legalidade burocráticas. E isto se reflete em todas as atividades dessas instituições. Elas são necessárias como órgãos normativos e promotores, mas não são nem poderiam ser, pela própria natureza delas, é claro, executores dos negócios turísticos.

Isto me faz pensar no que de fato constitui a base do turismo e qual o resultado desejado. Turismo se faz, essencialmente, com espírito de aventura e empreendedorismo.

Ninguem faz turismo sem o mínimo de curiosidade e disposição para o encontro de situação diferente das habituais. Conheço gente que não sai de casa nem para ir até a esquina comprar cigarro; se o vício não a move, nada mais o fará. Portanto, quanto maior seja a predisposição e a curiosidade para o contato em primeira mão com paisagens, pessoas, costumes, sons e sabores nunca dantes encontrados, ou o desejo de reencontrá-los, maior será a iniciativa de pegar as malas, ou a moxila, e partir no rumo do mundo. Para estes não há necessidade de infra-estrutura, de facilidades, de amenidades. Tem gente que se aventura e dorme em cama feita de sal no deserto de Astracan e enfrenta outros desconfortos, alguns ainda piores.

O apóstolo Paulo inventou o turismo religioso e percorreu regiões marginais do Mediterraneo levado pelo espirito catequético. Marco Polo inventou o turismo cultural. Quem teria inventado o turismo científico? Ou o de negócios? E quantos viajantes não percorreram dificuldades enormes em nome ou em busca da Ciência? Turismo requer a ânsia da novidade.

Mas nem todos os que têm esse desejo dispõem dos recursos necessários. É ai que entra o outro elemento essencialmente necessário ao turismo, o empreendedor, a pessoa que vislumbra oportunidades e os meios de as realizar. Thomas Cook, por exemplo. Aproveitando excesso de capacidade de navios de transporte de tropas inglesas e francesas, Cook vendeu a abastados londrinos a oportunidade de conhecer o mítico Egito.

Nas épocas de Paulo, Marco Polo, de Cook e sua clientela, não havia aeroportos nem lindas recepcionistas uniformizadas, o próprio conceito e a palavra turismo não existiam. Não havia infra-estrutura turística. No entanto, o turismo se fez com apenas suas duas coisas essenciais: aventurismo e empreendorismo.

Fico refletindo sobre o enorme desperdício de talento e dinheiro com firulas acadêmicas e burocráticas a pretexto de promoção, aperfeiçoamento e incentivo ao turismo. Sei que muitos destes investimentos são necessários no mundo moderno e globalizado desta idade do conhecimento e da informação. O que desejo é chamar a atenção para o fato de que se perde o foco na essencia e se despende esforço desproporcional no acessório.

Todos sabemos, é claro, que o grosso do dinheiro da atividade turísticca encontra-se no turismo de eventos. Não está no turismo ecológico, não está no turismo de laser, está em eventos. Eventos culturais e profissionais, principalmente. Mas estes eventos, por vezes, são realizados sem o apoio ou intervenção, até mesmo sem o conhecimento dos órgãos promotores do turismo. Isto porque são iniciativas de grupos diretamente interessados, sejam em congressos médicos ou feiras comerciais.

Evento é a conjugação de esforços de muitas áreas de atividade, cultural, profissional, econômico, social, com suas diversas nuances, na qual o setor do turismo entra como especialista no planejamento e coordenação de eventos, colocando-se a serviço do setor diretamente interessado. Apesar disto, ressalta a carência de iniciativas consistentes, abrangentes e competentes de alguns setores do turismo nesta importantíssima função.

O investimento dos órgão promotores deveria priorizar o espírito de aventura e o empreendedorismo, o aventureiro e o empreendedor, o turista e o operador de turismo. E se o objetivo for o faturamento, lotar hoteis e restaurantes, fazer casas de diversão, comércio e taxistas felizes, então o foco é um só: Eventos.