12 de setembro de 2019

O Melhor Brinde de Natal 2019


É tradição bem consolidada a oferta de brindes de Natal e Ano Novo a pessoas muito queridas, parentes, amigos, clientes e colaboradores. Para os mais importantes, presentes de maior prestígio. Entre todas as possibilidades, nada mais prestigioso que livro. Livro enaltece a quem oferta e honra a quem recebe.
Para brasileiros, em particular, amazônicos, nada mais apropriado que estórias de muiraquitãs e Icamiabas, de curumins e cunhatãs recontadas de maneira criativa e inovadora no livro de Sebastiao Imbiriba, O Filho do BOTO – lendas e histórias da Amazônia e do Mundo narradas pelo aventuroso John Dillon Ph. D., um descendente de confederados migrados para Santarém após a derrota para os Yankees em 1865.
O Autor, Sebastiao Imbiriba, 88 anos, é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, profundamente interessado pelo patrimônio histórico de Santarém e descortina seu amor por História em O Filho do BOTO.

As mesmas lendas dos antepassados e outras, porém recontadas de forma nova, surpreendente e imperdível:

·         A Saga da Família Dillon – Confederados no Brasil;
·         O Muiraquitã Negro – O poder dos mistérios da Amazônia;
·         Um Curumim no Labyrinthus – Aventura de Kaluana na França;
·         Kaluana em Köpenick – Aventura de Kaluana na Alemanha;
·         O Vaso de Cariátides – Os falsificadores da cerâmica Tapajó;
·         A Botija de Ouro do Barão – O tesouro perdido dos Cabanos;
·         A Vingança do Mapinguari – O sobrenatural amazônico;
·         O Falso Muiraquitã - A má sorte dada por um falso talismã;
·         O Segredo de Napoleão Bonaparte – O muiraquitã perdido;
·         O Filho do Boto – Amor, paixão e sensualidade amazônicos.


Esta oferta é de 5 livros pelo preço de apenas 3, que serão enviados com frete pago.
Os livros serão autografados pelo Autor conforme instruções do comprador. Sugestão: o Autor autografa o exemplar pessoal do comprador e este autografa os exemplares brinde.
Pedidos até 31 de outubro de 2019 para evitar congestionamento dos Correios.
Entrega até 30 de novembro de 2019. O preço unitário do livro é R$ 50,00.

Oferta de 5 livros, com FRETE PAGO, por R$ 150,00 
                                                                 mais R$   25,00 por livro adicional.

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1)      Enviar para e-Mail simbiriba@gmail.com:
a.      Nome completo do comprador;
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b.      Nomes completos dos que receberão livros autografados;
                                                              i.      Até 3 palavras-chave características de cada o homenageado a serem usadas nos autógrafos;
2)      Depositar no Banco do Brasil o total de aquisição:
a.      Agência: 3517-3
b.      Conta corrente: 30306-2
c.       Destinatário: Sebastiao Gil de Lalor Imbiriba
d.      CPF: 044.626.707-44

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Sebastiao Gil de Lalor Imbiriba
simbiriba@gmail.com - +55 21 974 355 370

31 de agosto de 2019

RUMOS AMAZÔNICOS


Este artigo foi reescrito do original publicado na
imprensa do Tapajós e neste blog em 20 de maio de 2008.

O mundo do século XXI possui impérios territoriais e/ou populacionais como Estados Unidos da América, União Europeia, China, Rússia, Índia e Brasil, além de potências ex-imperiais como Japão, Alemanha, França e Reino Unido e outras menores, todos antagônicos entre si, buscando cada qual satisfazer os interesses e necessidades de seus povos.
 O Brasil, embora o mais fraco militarmente, inclusive pela renúncia constitucional às armas atômicas, possui riquezas tanto ambientais quanto econômicas inexploradas que são objeto de escrutínio constante com vistas à sua usurpação.
Setores dos grandes impérios e outras potências econômicas pretendem extinguir a soberania brasileira e internacionalizar a Amazônia para explorá-la a bel prazer.
Impérios não são ingênuos nem bonzinhos. Impérios forçam condições e impõem seus interesses subjugando os mais fracos. Até mesmo nações menores, quando providas de recursos para impor suas vontades, como a Noruega, por exemplo, se movimentam tentando usurpar nosso patrimônio.
O recente ataque francês ao Brasil, a pretexto de protestar contra incêndios florestais e defender o meio-ambiente, porém visando a internacionalização da Amazônia e outros interesses econômicos, levanta entre brasileiros com visão geopolítica, principalmente militares, a necessidade de definir e implementar estratégias de proteção da soberania nacional e desenvolvimento sustentável de longo prazo para a Amazônia.
A incoerente política amazônica dos governos brasileiros, ou falta dela, desde que Juscelino construiu a Belém-Brasília, tem produzido desastre sobre desastre. A colonização amazônica não poderia ter sido realizada por estradas automotivas, mas por ferrovias e, principalmente, por suas vias naturais, rios regularizados por barragens e eclusas, com núcleos populacionais produtivos conforme a vocação econômica de cada local, sempre associados à produção hidroelétrica, sendo o transporte de carga principalmente fluvial e o de pessoas mormente aéreo. Tal esquema evitaria os grandes desmatamentos induzidos pelas rodovias.
Geopolítica da Nova Ordem Mundial
O congelamento econômico da Amazônia, por meio de extensas reservas ambientais e indígenas, associado à falta de investimento em pesquisa científico-tecnológica apenas resultam em pobreza, estagnação e vazios improdutivos que exaltam a cobiça de quem acredita saber e poder tirar mais com menos para benefício próprio, não só os estrangeiros, como madeireiros e garimpeiros nativos impulsionados pela ignorância e pobreza.
Vejamos, agora, o que devemos fazer para proteger os grandes e fundamentais interesses do povo brasileiro na Amazônia.
Em primeiro lugar, o império da Lei. A lei se diz igual para todos, portanto, somos todos iguais, ou devemos ser, e se não formos há que corrigir a anomalia. Índios e demais brasileiros são ou devem ser iguais e, se não o são, o Estado deve realizar programa de educação integral que conduza os povos indígenas a se integrarem à vida nacional no prazo de uma geração.
Não esqueçamos que, durante a Segunda Grande Guerra, colônias alemãs, italianas e japonesas foram induzidas a adotar a língua portuguesa e ao processo de integração à cultura nacional.
Dentro de um quarto de século, os brasileiros de origem indígena, não somente devem ter sistematizado sua própria cultura, tornando-a literal para que não se perca, como se integrado a cultura geral brasileira. Nesse prazo os indígenas deverão estar aptos à convivência social ampla e ao exercício das profissões da vida moderna, porquanto não é justo condená-los ao primitivismo subumano.
Então, a diversificada cultura brasileira estará vitalizada e enriquecida com as variadas culturas dos diversos povos indígenas, ao mesmo tempo preservadas e integradas às de povos tão diversos como asiáticos, europeus e africanos. No entanto, o Brasil continuará a ser uno em sua rica diversidade cultural.
A segunda providência para tornar iguais os desiguais, será impor o mesmo critério para as propriedades de terras, fazendo com que todos os brasileiros, sejam de que origens forem, tenham os mesmos direitos fundiários e as mesmas restrições latifundiárias. Desta forma, desaparecerão os enormes e vazios latifúndios que hoje constituem as reservas de todos os tipos, liberando espaços específicos para a exploração sustentável de nossas imensas riquezas.
Deste modo a Amazônia será descongelada e colocada a serviço dos amazônidas, multiplicando nossa riqueza econômica e colocando esta grande nação entre as maiores do mundo.
O terceiro eixo estratégico é a consolidação e ampliação do esforço de pesquisa científica e tecnológica amazônica, semelhante ao desenvolvido pela Embrapa no setor agropecuário, visando o aproveitamento sustentável econômico-social do potencial mineral, vegetal e animal amazônicos, sempre buscando a verticalização da agregação de valor ao produto desta região.
Sustentar significa repor o que se retira, restabelecer ou compensar com vantagem o que foi alterado, multiplicar a produtividade mantendo o equilíbrio ecológico.
Este é o caminho para usar a Amazônia, sem a destruir, torna-la benéfica ao Brasil e à Humanidade, para satisfação, orgulho e proveito de seus vinte e cinco milhões de habitantes, que somo nós os amazônidas.

23 de agosto de 2019

The Amazonian fires of 2019



There is a burn and there is a fire. Every year there is burning of pasture to burn the straw and to facilitate access to grass, burning of sugarcane to facilitate the cutting of sugarcane and burning of small farming land to plant manioc. This is controlled burn no fire.
Fire can be criminal, but it is small compared to fire caused by climatic factors.
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This year's annual Amazon drought is one of the largest ever and the 2019 fires are the third largest after 2010 and the 2004 largest, which did not arouse as much stir as these.
The Bolsonaro government, especially the Environment Ministry, including by budget contingency, really did not anticipate prevention measures of fires that occur every year. Money scarcity.
Most of Brazilian and European media, academy and youth is leftist and opposed to Presidents Trump and Bolsonaro and take any pretext for protests by movements funded by US farmers vying for markets against Brazilian agribusiness, and by Europeans farmers who suffer competition from those two. President Macron campaigns against President Bolsonaro to defend French farmers. It's all staging in fierce trade war.
It is necessary that the Brazilian government take steps in conjunction with the other Amazonian countries, which also suffer from the fires, to:
1. Prevent and fight fires and control burns;
2. Prevent deforestation in protected forests;
3. Promote reforestation in springs and riverbanks;
4. Consolidate the Amazonian occupation by the Brazilian people;
5. Incorporate the indigenous peoples of the Amazon into the Brazilian nation;
6. Promote public relations campaign for worldwide clarification of Amazonian issues related to national sovereignty and sustainable use of its natural resources.

Os incêndios amazônicos de 2019

Existe queimada e existe incêndio. Todo ano tem queimada de pasto para queimar a palha e facilitar o acesso ao capim, de canavial, para facilitar o corte da cana, e coivara, para plantar aipim. Isto é queimada, não é incêndio.
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Incêndio pode ser criminoso, muito pequeno frente ao provocado por fatores climáticos. 
A estiagem anual amazônica deste ano é uma das maiores já ocorridas e os incêndios de 2019 são os terceiros maiores depois dos de 2010 e os maiores de todos, de 2004, os quais não despertaram tanta celeuma quanto estes.
O governo Bolsonaro, principalmente o ministério do meio ambiente, de fato, inclusive por contingenciamento de verbas, não antecipou medidas preventivas de incêndios que ocorrem todos os anos. Faltou dinheiro.
A maioria da mídia, da academia e da juventude brasileira e europeia é esquerdista e contrária aos presidentes Trump e Bolsonaro, e aproveitam qualquer pretexto para protestos, em movimentos financiados por agricultores dos Estados Unidos, que disputam mercados com o agronegócio brasileiro, e europeus que sofrem a concorrência daqueles dois. O presidente Macron faz campanha contra o presidente Bolsonaro para defender agricultores franceses. É tudo encenação em guerra comercial.
É necessário que o governo brasileiro tome providências em conjunto com os demais países amazônicos, que também sofrem com os incêndios, para:
1. Prevenir e combater incêndios e controlar queimadas;
2. Prevenir o desmatamento em florestas protegidas;
3. Promover reflorestamento em nascentes e margens de rios;
4. Consolidar a ocupação amazônica pelo povo brasileiro;
5. Agregar à nação brasileira os povos indígenas amazônicos;
6. Promover campanha de relações públicas para esclarecimento mundial das questões amazônicas relativas à soberania nacional e uso sustentável dos seus recursos naturais.

25 de julho de 2019

CINQUENTA ANOS DE AMOR


Esta crônica foi escrita para marcar a data de 25 de julho de 2006 quando se completaram cinquenta anos de meu casamento com Nancy.
Eu a republico hoje ao completar sessenta e três anos de casados.

Num ensolarado domingo dos últimos dias de outubro de 1951, meu irmão Antonio e eu, na lancha que meu pai trouxe de Fernando de Noronha, denominada Eunice, saímos a reconhecer o belo rio Tapajós cujas águas nos eram completamente desconhecidas. Embora nascido em Santarém e banhado com águas trazidas em cântaros das margens do rio azul, fui daqui levado antes que completasse o primeiro ano de vida. As águas do imenso rio nos encantavam e navegávamos em ziguezague pelo espelho azul gozando as delícias do passeio, felizes por não estarmos enfrentando as imensas ondas do mar de Noronha.

A lancha fora construída exatamente para enfrentar ondas oceânicas e seu casco, abaulado como meia-banda de cacau, empurrava água para os lados levantando marolas tão mais altas quanto mais acelerávamos seu potente motor. Quando passávamos rente à praia, no trecho que se estende de onde hoje existe uma quadra de basquete até o Mascotinho, quase fizemos alagar uma canoa movida por motor de popa, pilotada pelo Abel que na época era empregado do Ninito Veloso e hoje ainda trabalha na firma do Paulo Correa. A canoa estava cheia de crianças pequenas, filhos de Pedro e Geny, que vieram de Belém passar férias e aproveitavam aquela bela manhã para um passeio tranquilo acompanhadas da tia, uma jovem apenas pouco mais velha que elas cujo nome vim a saber pouco depois, Nancy. As crianças choravam desesperadamente, com medo do naufrágio, Abel nos lançava olhares furiosos e Nancy gritava alucinadamente ordenando que nos afastássemos.
Antes que o desastre acontecesse, o bravo piloto conseguiu embicar a canoa na praia, diante da casa do Ninito, no canto da praça São Sebastião, salvando a todos dos perigos que dois desatinados rapazes ofereciam à navegação fluvial. Antonio e eu poitamos a lancha diante de onde é hoje a sede do PT. Fomos até a casa ao lado, que pertencera a Alarico Barata e onde esperávamos o fim das reformas de nossa residência na praça defronte da Usina de Luz.
Pegamos nosso enorme cachorro Tico, também trazido de Noronha e nos dirigimos à praia onde estavam Nancy e as crianças com a intenção de dizer que não fora nossa intenção assustar os pequenos, nem a ela. Queríamos estabelecer relações cordiais, mas o pequeno Biriba, cachorrinho de estimação de Nancy, mais atrevido do que feroz, ofereceu ao Tico uma sessão de latidos que ainda me ferem os ouvidos, o que só fez irritar ainda mais a bela jovem e atemorizar novamente as crianças. Realmente, não era nosso dia de relações sociais.
Tivemos, meu irmão e eu, de afastar o Tico. Essa foi a segunda ordem que Nancy me deu em menos de uma hora e até hoje continuo obedecendo, mas ela estava tão aborrecida por causa da aflição das crianças que nosso relacionamento não passou daí. Afilhada de dona Ciloca e de Paulo Rodrigues dos Santos, Nancy passava diante de nossa casa sempre que lhes ia tomar a benção, oportunidade que tínhamos de trocar olhares interessados e indagadores.
Somente começamos a namorar dois anos depois, quando começou a instalação da Empresa Telefônica de Santarém e eu ajudava meu pai no empreendimento, primeiro tentando convencer as pessoas a subscreverem cotas do capital, depois acompanhando os trabalhos dos técnicos vindos do Rio de Janeiro com o propósito de assumir a manutenção da central e da rede. Foi a discussão, testemunhada por Nancy, pela destruição dum pedaço de cabo telefônico, depois da qual fui até a casa dela tomar um copo d’água, que quebrou o gelo. Ela lecionava no Frei Ambrósio e meu irmão Miguel era seu mais bem comportado aluno. Foi ele que lhe levou meu primeiro convite para o cinema.
A partir daí passamos, Nancy e eu, a ir juntos ao Cinema Olímpia e fazer par constante no Recreativo, aos sábados à noite ao som da Euterpe, banda de seu Toscano e nas matinês domingueiras ao som de vitrola. Até escolhemos um foxtrote, “Por tua causa”, como nossa música, com a promessa de a dançarmos sempre que tocasse, mesmo que estivéssemos brigados ou não fossemos mais namorados. Isto de fato aconteceu. Fiquei com ciúmes por ela estar dançando com Nascimento, namorado da Zita. O coitado apenas relatava as cartas que Zita lhe mandara de Portugal. Dançava com Nancy para se sentir mais próximo da noiva, para matar um pouquinho as saudades.
Vi a cena e sai do Recreativo. Já passara do Correio quando a Euterpe atacou “Por tua causa”. Voltei na mesma pisada e, todo empertigado, cumpri a promessa da contradança. Mas não resisti à ternura de Nancy e o ciúme tolo se apagou. Tive sorte. Quando ela me viu ir embora também se dispôs a sair. Minha mãe lhe pediu que ficasse, aproveitasse o baile, que eu logo voltaria. Sempre achei que fora o Loris Figueira quem alertara o líder da banda. Só muitos anos depois Nancy me confessou que ela mesma pedira ao Toscano que tocasse nossa música. Tempos românticos aqueles.
Foi no casamento de Tereza Miléo, uma das mais brilhantes e melhor comentadas festas daquele ano de mil novecentos e cinquenta e três, que decidi me casar com Nancy. Se ela me aceitasse, é claro. Nancy era professora no Colégio Frei Ambrósio e Tereza sua diretora. Além disto, meu pai era muito amigo da família Miléo. Nossa presença era obrigatória. Estávamos, Nancy e eu, na sacada do belo sobrado em frente ao trapiche, hoje substituído pelo tão protelado porto turístico, olhando o vazio mal iluminado da Praça do Pescador, que então não existia, conversando e apreciando os convidados que ainda chegavam. A noite era muito agradável, havia música no interior do salão e eu estava apaixonado. Foi então que começamos a falar de namoro firme, quase noivado, a traçar planos para o futuro comum, a discutir o tamanho da família que gostaríamos de ter, a fazer juras de amor.
Mas eu não estava muito feliz em Santarém. Minhas experiências como plantador de hortaliças e verduras foram todas frustradas pela enormidade de plantas invasoras e insetos vorazes que existe na Amazônia. Além disto, eu perdera toda minha riqueza, meia centena de cabeças de gado em sociedades no Lago Grande. Na cheia de cinquenta e três, enquanto eu levava o gado de meu pai, dos Remédios, na várzea em frente à cidade, para a terra firme do Lago da Praia, no Arapiúns, minhas rezes permaneciam alagadas no Lago Grande e quando eu lá cheguei só pude embarcar a metade. A viagem foi a mais triste da minha vida, observando milhares de rezes mortas boiando no Lago ou rio abaixo, atirando fora do batelão as minhas que morriam. A novilha que sobreviveu foi comida por onça. Assim, desisti da vida agrária e resolvi ir para o Rio de Janeiro estudar e comecei a me preparar para isto. Senti que Nancy não apreciara a ideia, mas, compreensiva e generosa, me incentivava assim mesmo.
Ao final da enchente, numa viagem de volta para casa, dos Remédios, onde eu construíra maromba para abrigar o gado na próxima cheia, nossa canoa à vela deslizava pelo o rio levemente encrespado numa tarde ensolarada. Eu conversava com o caboclo que me fora buscar quando a sonoridade dos sinos da matriz me chegou aos ouvidos. “É o enterro do Xixito”, disse ele, “foi assassinado”. A notícia foi um choque. Acontecimentos dessa natureza eram raros em Santarém, a tragédia envolvia pessoas importantes e o morto era marido de Dulce, irmã de Nancy. O acontecimento afetou profundamente a viúva de Xixito, ex-vereador Manoel Maria Macedo Gentil. Ela foi com os filhos pequenos para o Rio e só retornou a Santarém uma única vez.
Cito o fato pela grande importância que Dulce tem em nossa vida, minha, de Nancy e nossos filhos e netos. Aos noventa e tantos anos, Mana Dulce continua saudável, com espírito alerta, alegre, cheia de verve inteligente e fácil. Não é de admirar, Dona Marcolina, mãe de onze filhos dos quais Nancy é a caçula - sou primogênito de onze irmãos – foi matrona venerável da família Ayres, repleta de mulheres admiráveis: ela própria e suas filhas, Edith que permaneceu solteira, Lídia Matos, Dulce Gentil, Geny Pontes, Zilah Veloso, Mariinha Mendonça e Nancy, a caçula, minha companheira. São mulheres cuja maior virtude e galardão é a enorme capacidade de amar, de dar amor, de fazer com que os outros se sintam amados.  Amor doado com a maior simplicidade, a mais desprendida e comovente generosidade.
Terminada a montagem da central telefônica, instalada no sobrado da esquina de Siqueira Campos com Mártires, eu mesmo soldei os últimos fios e, antes da inauguração oficial, fiz a primeira ligação telefônica automática jamais realizada em Santarém. Liguei para a casa de Zilah e Ninito. Nancy mesma atendeu ao tão esperado toque. Conversamos, comentamos a novidade inaugural e marcamos encontro para depois do jantar. Naquele tempo, o bruxuleio que a sobrecarregada caldeira da Usina de Luz conseguia colocar nas lâmpadas de Santarém ia só até às nove da noite. Depois disso a cidade apagava e nenhuma moça de família namorava. Eu tentava esticar a visita, mas a atenta Zilah mandava Ester e Júlia nos rodearem, pigarreando, tossindo e, por último, avisando imperativamente que era hora de dormir. Só me restava dar um último abraço, roubar um beijo sorrateiro e me despedir.
Os festejos de Natal daquele ano foram felizes e pesarosos ao mesmo tempo. Aproveitávamos ao máximo os momentos de estarmos juntos, pressentindo e temendo as saudades que já afloravam. A despedida foi triste e cheia de promessas. Promessas, ah... promessas.
Três anos depois, em agradável manhã de domingo, quando já havia algum tempo que retornáramos da missa, tocaram a campainha de nosso conjugado na Praia de Botafogo. Fui à porta atender e tive a agradabilíssima surpresa de ver diante de mim a figura simpática e risonha de Frei Prudêncio. Ele estava de passagem pelo Rio e nos fazia o agrado da visita. O frade era, de longa data, amigo de nossas famílias, das quais fizera batizados, primeiras-comunhões e uniões. Recebemos o amigo, confessor e conselheiro com muita alegria. Frei Prudêncio oficiara nosso casamento, agora, brincava com nossa filha Bia em seu colo.
Em julho de 1956, aproveitei a oportunidade de minhas primeiras férias no emprego que obtivera, logo ao chegar ao Rio, recomendado que fora à empresa fornecedora do sistema telefônico de Santarém e voltei ansioso por garantir que Nancy e eu viveríamos juntos para sempre. A caçula, embora a mãe morasse no canto da rua dos Artistas com a praça São Sebastião, desde criança fora criada pela irmã na casa do canto oposto, à beira-rio, o que provocou a dúvida: Nancy morava com Zilah e meu pai não sabia se deveria fazer o pedido ao marido desta, Ninito Veloso. Meus pais visitaram Dona Marcolina e, em meu nome, pediram formalmente a mão de Nancy em casamento. Tudo conforme a praxe que então se obedecia rigorosamente.
Proclamas dispensados, no dia vinte e cinco de julho de mil novecentos e cinquenta e seis, na casa de meus pais, ali no meio da praça Rodrigues dos Santos, Doutor Cacela oficiou o casamento civil e Frei Prudêncio o religioso. A noiva, linda em seu vestido branco, foi trazida por Ninito ao som da valsa nupcial briosamente tocada ao piano por Dona Beatriz, minha mãe. Eu ardia em febre de quarenta graus e mal me punha em pé. Dias depois embarcávamos para o Rio.
Tivemos uma série de quatro meninas, depois as gêmeas, finalmente o menino. Quando Junior já estava com pouco mais de dois anos, Nancy e eu, conversávamos na sacada de nosso apartamento na Gávea, quando observamos uma senhora que descia a Marquês de São Vicente com seu recém-nascido num carrinho. Nancy calou-se e acompanhou a mulher e a criança com o olhar até que a curva da rua os escondesse. Por algum tempo ficou pensativa e, quando a toquei no ombro, virou-se para mim e disse, com um misto de aceitação e saudade na voz: “ano que vem não teremos mais bebê em casa...”. Esta frase, naquele contexto, mostra perfeitamente a missão dessa generosa mulher. Nancy veio ao mundo para ser esposa dedicada, mãe amorosa, avó carinhosa, bisavó cheia de ternura. É isto que a faz ser o que é. Nancy cuida. Nancy ama. Nancy acarinha. Sua missão é amar.
Mas Nancy é firme. É firme no caráter, firme na fé, firme nas convicções, firme na ética e na moral, firme em perseguir o que quer. Essas virtudes se aliam às muitas outras que possui e fazem dela pessoa excepcional. Ela é responsável por estarmos juntos e bem, ela quis isto e não permitiu que os tortuosos caminhos da vida nos afastassem desse objetivo. Porque ela mesma me declarou que sua ambição de vida era ficar bem velhinha junto comigo para cuidar de mim, para que cuidássemos um do outro, para que nos amássemos eternamente.
União de cinquenta anos, bodas de ouro, é extraordinária benção divina. Muito poucos são os privilegiados por esse tesouro de bênçãos juntas e interligadas. Primeiro é o dom da vida, longa o suficiente para atingir esse estágio. Outra benção é o amor que une e envolve o casal de modo irreversível. Depois, os dons da tolerância, da apreciação da diferença, da aceitação do contraditório. O dom do perdão. O dom da capacidade de influenciar para retificar e aperfeiçoar a vida do companheiro. Finalmente, a benção de que sejam dois os abençoados.
Além disto, há a benção do destino, da sorte, dos acontecimentos fortuitos, aleatórios, imponderáveis e imprevisíveis que nos forçam os passos. Quando Nancy e eu decidimos que não pertencíamos aonde morávamos, que deveríamos retornar a Santarém, sentimento atávico nos guiou para o lugar ao qual pertencemos. É aqui na Terra da Felicidade, onde podemos ser quem somos, que retomamos o namoro antigo, refizemos o casamento de nossos destinos e sublimamos o amor original. É aqui que nos amamos.
E se isto parece ao amado leitor alguma deslavada e pública declaração de amor, esteja certo de que é isto mesmo, a mais desastrada e incompetente, porém a mais profunda, sincera e fervorosa declaração de amor.





5 de julho de 2019

Humanidade geneticamente modificada




Na Segunda Cúpula Internacional sobre Edição do Genoma Humano realizada em Hong Kong, em novembro de 2018, cientista que se aprestavam a debater prós e contras da modificação genética de seres humanos foram surpreendidos pela notícia de que He Jiankui, um biofísico chinês, já havia modificado geneticamente pelo menos três bebês em gestação, os quais a estas alturas já nasceram.
Imagem relacionadaA modificação genética de seres humanos, portanto, apesar da condenação dessa prática por grande número de cientistas, já é realidade com a qual temos que conviver e, consideradas as ameaças potenciais da inteligência artificial, pode representar a esperança de sobrevivência da humanidade.

Por enquanto, no caso apresentado por He Jiankui, a modificação genética se restringiu a um segmento de DNA envolvido nos mecanismos de defesa contra vírus, permitindo bloquear ataques do HIV.
O desenvolvimento da modificação genética de seres humanos pode gerar pessoas ultra inteligentes, saudáveis e imunes a doenças geneticamente transmissíveis, resistentes ao envelhecimento e capazes de acumular conhecimento e experiências ao ponto de rivalizar com os mais avançados robôs produzidos pela AI e, talvez, suplantá-los.