18 de fevereiro de 2016

A Saga da Família Dillon



Meus pais me batizaram com o nome de John Dillon, e nasci na cidade de Santarém do Tapajós, na confluência desse grande rio com o imenso Amazonas. Os Dillons têm origem remota na França, de onde o Conde De Lyon partiu com toda a família e as joias que pode arrebanhar, durante o Regime do Terror do famigerado Maximilien de Robespierre, que se seguiu à Revolução Francesa. Refugiou-se na Irlanda onde o heráldico nome De Lyon transformou-se no plebeu Dillon.


Mas a saga dos Dillons não terminaria na Irlanda, de onde fugiram da fome das batatas e ferocidade dos ingleses para prosperar como grandes plantadores de algodão na Carolina do Sul. Após a Guerra Civil, juntaram o pouco que restou da derrota para os Yankees em 1865 e, mais uma vez, junto com outros fazendeiros sulistas, migraram para o Brasil, onde compraram terras em Santarém do Tapajós, na Amazônia. 

Um dos descendentes desses Dillons migrados para a misteriosa Amazônia foi meu avô, Jack Jr., que levara vida cheia de aventuras. Antes de morrer, o avô me chamou ao seu leito e, circunspeto, colocou em minhas mãos o seu mais precioso bem, um talismã negro que ele possuíra por mais de setenta anos. "Jamais se desfaça deste muiraquitã. Prometa", murmurou ele. "Prometo", disse eu solenemente.


Conhecedor do caráter profundamente honesto de meu pai que, no entanto, tinha uma personalidade bastante alegre e ainda mais volúvel, incapaz de prosseguir seriamente com qualquer projeto um pouco mais longo, meu avô deixou para mim em testamento praticamente todos os seus bens, colocados em um trust, aos quais eu só teria acesso após completar os vinte e um anos.

Após o falecimento de meu avô, como era de se esperar, as coisas não foram bem com as finanças de meu pai e seu negócio de então, a oficina de marceneiro. Ele usava as preciosas madeiras de lei da Amazônia e produzia móveis de luxo para as famílias abastadas. Suas portas lavradas ainda podem ser vistas nos casarões elegantes.

O problema é que, no fim do século dezenove, os ingleses levaram sementes da seringueira para a Malásia e começaram a produzir borracha muito mais barata do que os seringais da Amazônia. A região toda empobreceu. No período entre as duas Grandes Guerras, grandes fortunas se arruinaram, e muitos milhares de seringueiros abandonaram as matas e se tornaram pedintes nas cidades.


Durante a Segunda Grande Guerra, houve um surto de prosperidade devido à ocupação dos seringais asiáticos pelos japoneses. Os Estados Unidos da América injetarem muito dinheiro para reerguer a produção dos seringais nativos. Após a guerra, apesar dos esforços do governo brasileiro para manter a produção, aos poucos, a concorrência do látex da Malásia derrubou os preços abaixo dos custos de produção dos seringais brasileiros. Tudo isso foi enfrentado por Jack Jr., meu avô, com toda competência e galhardia. Tanto assim que, se já começara rico, ficou mais rico ainda, não só com negócios de borracha, mas com todos os outros projetos que seu espírito empreendedor realizava continuamente.

Meu pai era outra coisa. Em outro relato tentarei explicar as razões de sua má sorte. O fato é que, mais uma vez, ficou sem clientela. Meus cinco irmãos, duas irmãs e eu tínhamos que ajudar na oficina de meu pai e na cozinha de minha mãe.

Assim, tive que enfrentar alguns obstáculos para estudar, formar-me engenheiro e iniciar uma profissão que não me satisfazia. Aliás, exercer alguma profissão é coisa que não está à altura de meu formidável talento, razão pela qual, já na faixa etária dos quarenta, prefiro continuar estudando.


É por isso que graças a sucessivas bolsas, obtive bacharelado também em economia e sociologia, prosseguindo na vida acadêmica até o doutorado em Harvard e o circuito internacional de cursos, conferências e seminários. Frequentemente, atuo como professor convidado nas mais importantes universidades. Não há lugar melhor para entreter relações com mulheres cultas, inteligentes e, por isso mesmo, excelentes parceiras, principalmente na cama. É vida muito agradável, e ainda me pagam pelo que mais gosto de fazer, palestrar, falar em público, principalmente sobre mim mesmo. Aliás, a única despesa que tive na vida acadêmica foi o ano que passei em Florença num curso de História da Arte. Mas essa já é outra história.


Como já disse, meu pai nunca foi um homem de muita sorte. Meu avô sim, e eu também. Já disse, e repito sempre, que detesto essas crendices populares. Meu brilhante intelecto rejeita qualquer coisa que não caiba em um silogismo perfeito. Mas o povo comenta, maliciosamente, como sempre, que a sorte de meu avô se devia à posse do miraculoso muiraquitã negro que hoje está em meu poder.

Ora, os simplórios atribuem poderes mágicos a qualquer muiraquitã, e mais ainda a esse, que é único e negro. Dizem que é ele a causa da incrível sorte e felicidade de meu avô, mais ainda a do padrinho dele, o ilustre barão do Solimões; e toda a desastrada vida de meu pai se deve à falta de um muiraquitã, mesmo que um simplesinho, desses que se encontram em alguns museus.


Bem, é fato que a sorte nunca bafejou meu pai, e que ele, também, jamais possuiu qualquer talismã, nem mesmo desses que ciganos, mães de santo e pajés oferecem enganosamente aos crédulos que os sustentam, muito menos um sagrado muiraquitã verdadeiro, dos verdes, garimpado no Lago da Lua pelas Icamiabas. A vida dele sempre foi muito difícil e as desgraças se abatiam sobre ele com maior frequência e intensidade do que os pingos das chuvas torrenciais que se derramam em tempestades sobre a Amazônia durante mais da metade do ano. Mas ele tinha espírito alegre e nunca se abatia, aceitava tudo com muita naturalidade. Era um otimista e sonhador.


Encarar o mundo com otimismo e confiança pode ser preciosa virtude ou maléfico defeito, dependendo da pessoa e das circunstâncias. Quando o final é feliz, tudo bem. Mas é necessário aguardar o final, e, para alguns, jamais acontece o “happy end”. Com meu genitor era assim.


Meu pai foi um típico menino nascido e criado em Santarém do Tapajós, nadava da prefeitura, onde hoje é o Centro Cultural João Fona, que chamamos de museu, até a Ponta Negra, que demarca a confluência do Tapajós com o Amazonas. 


Ponta Negra é o extremo oriental de extenso istmo que separa os dois grandes rios, desde o Lago Grande do Curuái, pelo lado do Amazonas e o rio Arapiúns, afluente do Tapajós. Com o passar dos anos e das cheias, a correnteza do Amazonas lavou e levou as terras dessa ponta, que antes chegava até diante da antiga prefeitura. Em seu lugar, mais ao centro do Amazonas, surgiu uma ilha de aluvião. Entre os dois pontos, há uma distância de mais de três quilômetros, no meio da qual as águas barrentas do Amazonas se encontram com o azul do Tapajós, mais esverdeado na seca, devido às algas, ou mais avermelhado na época das chuvas, cor da serapilheira inundada. Os meninos costumam nadar essa distância, ida e volta, por simples brincadeira. Coisa de ribeirinhos da Amazônia.


Além de nadar no Tapajós, adorava cavalgar e não se continha até a chegada das férias escolares, quando ia para as fazendas de gado de meu avô. Quando meu pai completou seis anos, o pai dele o presenteou com sela, bridão, botas, rebenque e o ensinou a montar. Isto é, montar ele sabia, mas não possuía a técnica de dominar o ginete e fazê-lo apartar e conduzir o gado e tudo mais que um verdadeiro vaqueiro deve saber. E, com seu jeito peculiar de conduzir as pessoas, gentilmente ensinou todos os segredos da arte de vaquejar ao menino. Além disso, seguindo a tradição dos Dillons na arte da equitação, ensinou-o a saltar obstáculos com elegância de verdadeiro cavaleiro e até o fez competir em torneios da Sociedade Hípica Brasileira. Infelizmente, como já disse, meu amado pai não perseverava em seus projetos e não pôde tornar-se o campeão que meu avô ambicionara.


Meu avô o levava às fazendas de várzea do Lago Grande e às de terra firme do Arapiúns, para onde o gado era conduzido nos períodos de cheias. Na vazante, a várzea se transformava em extensos campos de belo frescor verdejante, como imensas esmeraldas engastadas entre igapós e florestas. É emocionante ver o capim crescer quando as águas baixam; num dia estão deste tamanhinho, no outro já quase dobrou de tamanho. É a riqueza das terras de aluvião, da energia de um sol equatorial e da umidade constante. Ali, o gado cresce e engorda que é uma beleza. Ali, o menino disparava em correrias, para lá e para cá, montado no garanhão que o avô lhe dera para acompanhar os arreios e as botas.

Uma noite, o cavalo desapareceu. Quando meu pai, isto é, aquele menino de seis anos que no futuro seria meu pai, na manhã seguinte, ao raiar do sol, antes mesmo de tomar o desjejum, levou os arreios para selar o cavalo, não o encontrou no curral. A porteira estava fechada, as cercas intactas, nenhum vestígio de ataque de cobra ou onça. O vaqueiro que, por ordem expressa do fazendeiro, sempre acompanhava o menino, se benzeu. “É coisa do demo”, disse ele. 


Logo juntou gente. Uns diziam que fora Cobra-grande, outros que era coisa de Curupira. Houve até um que falou em boto, mas todos caçoaram dele, porque nunca ninguém viu nenhum boto montando cavalo por estas bandas, muito menos desaparecendo com ele. 
Aliás, nunca ninguém viu nem Cobra-grande, nem Curupira, mas todos acreditavam piamente nesses seres fabulosos. Não era justo caçoar do rapaz só porque ele acha que o boto levou o cavalo para o fundo do lago. O que fazer, a maldade das pessoas é assim mesmo, ainda mais numa roda de vaqueiros, onde novato só serve para estas coisas, ser alvo permanente de chacotas e brincadeiras maldosas.


O rapazinho ficou desolado. Meu avô mandou procurar em toda parte. Até despachou um empregado para falar com o delegado de polícia, apresentar queixa do desaparecimento, possivelmente roubo do cavalo e de umas reses que logo se verificou que também sumiram. 


Mas o pior não foi isto. Meu avô tinha que ir à Vila franca, na boca do Arapiúns, coisa relacionada com borracha, látex em tonéis de petróleo, que um comerciante conhecido por Chubico explorava na margem direita desse rio. O menino foi com ele e aproveitaram para subir até a cachoeira do Aruã. A viagem foi divertida e serviu para que esquecessem por algum tempo o sumiço do cavalo.

Desceram de canoa o Lago Grande até a Vila Socorro, de onde atravessaram campos de capim barba-de-bode e savana rala até o Lago da Praia, no Arapiúns. Ali os esperava um batelão à vela para os levar, rio acima, até a cachoeira onde meu avô pretendia, junto com outros fazendeiros e negociantes, construir uma usina hidroelétrica. Tinham o sonho de produzir energia para movimentar máquinas de beneficiamento de produtos daquela região, coisa que ficou apenas em uma pequena turbina, porque meu avô e seus sócios se cansaram da burocracia do governo e das leis restritivas ao progresso. 


Depois de mergulharem nas águas abaixo da cachoeira e visitarem a pequena casa da turbina, desceram o rio até a Vila Franca para tratar de negócios. Dali, atravessaram a grande baía formada pelo Tapajós, enfrentando ventos fortes e ondas de mais de três palmos, um grande perigo para barcos regionais de bordas rasas. O menino ficou deveras apavorado com o rugir do vento rasgando as velas, com o corcovear do batelão subindo e descendo as vagas, as ondas rebentando contra o costado e lançando água em cima dos passageiros. A criança se agarrava desesperadamente em meu avô, chorava e gritava de terror. Por mais que meu avô tentasse acalmá-lo, o menino ficava cada vez mais aterrorizado.


Quando chegaram à Santarém do Tapajós, numa viagem em barco à vela que durou quase duas semanas, mais uma triste notícia os esperava, a de que o galpão, ao lado da casa grande da fazenda do Lago Grande do Curuái, havia pegado fogo, e o incêndio destruíra tanto o prédio quanto tudo o que havia lá dentro, implementos, utensílios, arreios, rações, vacinas e remédios para o gado.

Meu avô e meu futuro pai seguiram imediatamente em uma lancha a vapor que pertencera à Amazon Cable, companhia telegráfica inglesa que explorava o cabo submerso que percorria todo o Amazonas desde os tempos áureos da riqueza da borracha. Era um belo barco de linhas suaves, esguio e muito veloz, cuja finalidade original era mover-se rapidamente em serviços de reparo nos cabos e estações telegráficas. Não se prestava para negócios de gado ou borracha, e meu avô o comprara em leilão, no fechamento da companhia, apenas para ter um veículo rápido para se locomover com presteza quando necessário e, além disto, porque queimava lenha que podia ser obtida em qualquer lugar da Amazônia, ao contrário do óleo diesel. A desvantagem é que exigia tripulação mais numerosa para alimentar as caldeiras. Mas era um barco muito elegante, lindo de se ver singrando as águas dos rios e agradável de ouvir sua máquina muito mais silenciosa do que os motores a explosão.


Chegaram à fazenda em menos de doze horas, subindo o rio, e, como haviam partido de madrugada, era ainda dia claro. Ficaram consternados com a desolação, tudo queimado. Por pouco o fogo não se propagara até a casa grande, graças aos vaqueiros que abriram um aceiro que não permitiu ao vento levar adiante as labaredas.


Apesar de estar tudo queimado, era possível identificar muitos objetos, a sela do fulano, o bridão do sicrano, mas não se encontrou nenhum vestígio do selim de meu pai, nem ao menos uma peça sequer de metal, uma argola ou estribo. Meu avô ficou possesso de raiva, mas manteve a compostura de sempre. Mandou que todos os vaqueiros e outros empregados formassem um círculo e os encarou, um por um, com aquele seu ar severo que fazia qualquer um baixar os olhos diante dele.


Depois de fazer o círculo completo, voltou ao novato, aquele que fizera gracejos a respeito de botos montados em cavalos. Mandou que se retirasse da fazenda imediatamente, que pegasse uma “montaria”, uma pequena canoa, da fazenda, e desaparecesse. Não queria encontrá-lo nunca mais.


A sela e os arreios foram encontrados, às margens da floresta, pelos cachorros, na caçada a uma suçuarana que andava comendo bezerros. Estavam bem abrigados por touceiras de capim, à espera de quem os viesse buscar. Não poderiam ser vistos, mas os cães lhes sentiram o cheiro e latiram em volta. O garanhão de meu futuro pai nunca mais foi encontrado. Talvez tivesse sido vendido a algum comerciante que o levaria para o Marajó, onde encontraria bom preço sem perguntas embaraçosas. Também nunca mais se teve notícia da “montaria” levada pelo peão, mas o corpo do rapaz foi encontrado, dias depois, em cima de uma ilha de capim flutuante, dessas arrancadas das margens do rio pela força do Amazonas, preso aos galhos do igapó na boca do Arapixuna, o furo que liga o grande rio ao Tapajós na época das cheias. A barriga do peão estava enorme e a cabeça partida ao meio por tremendo golpe de terçado.

Meu avô sempre negou que tivesse algo a ver com a morte do peão. Ele poderia matar se fosse o caso de defender a vida própria ou de terceiros, mas era sabido que seu caráter não permitiria que se envolvesse em assassinato. No entanto, as más línguas sempre lhe apontaram a responsabilidade, o que contribuía para que, além de ser muito respeitado, fosse também muito temido. Também nada foi provado, nem nada foi investigado, a última coisa desejada pelo delegado seria se indispor com meu avô. Um bilhete ao governador bastaria para que o policial fosse desterrado para local inabitável. O fato é que, se todos o respeitavam, passaram todos a temê-lo, e nunca mais ninguém se atreveu a roubar o que quer que fosse de suas propriedades, fazendas e plantações.


Aquela viagem, a perda do ginete, a aterrorizante tempestade no Tapajós, a visão do incêndio e, depois, a do peão com a cabeça decepada ao meio, tudo foi muito perturbador, e o menino jamais conseguiu se recuperar totalmente. Meu futuro pai ficou deprimido por várias semanas, e, somente quando a avó o levou a passear em Manaus, é que ele aos poucos se recuperou da primeira das que, depois, passaram a se denominar as crises dos seis anos de meu pai. Crises periódicas que ocorreram aos seis, doze, dezoito anos, e assim por diante. Não houve crise dos trinta e seis, mas, a essa altura ele já estava morto.


Meu avô jamais o perdoou. Não admitia que seu próprio filho, no seu entender de machista radical, comum naquela época, fosse um covarde que temesse umas ondinhas de nada do Tapajós ou que não encarasse a coisa mais infalível que existe, a morte. O relacionamento entre os dois foi sempre distante a partir de então. E, quando eu nasci, todo seu afeto e toda sua atenção foram centrados em mim.

Continua...
Em breve o livro será publicado.

30 de janeiro de 2016

Barragens elevadas reduzem a liberação de gazes nocivos

Sei que sou a voz solitária neste ambiente contrário às barragens. 

Não me queiram mal, mas minha visão geopolítica da questão energética me faz considerar, não apenas os interesses locais atuais, mas o interesse nacional de longo prazo, no qual incluo o cuidado que devemos ter com o meio ambiente para nossos filhos e netos.

Sei que energia abundante e barata é fundamental para posicionar o Brasil em melhor condição de competitividade perante seus concorrentes, e nosso potencial hidrelétrico pode nos colocar em grande vantagem competitiva quando saiamos da recessão. Isto é fundamental para a criação de empregos para as próximas gerações.

É por isso que defendo a construção de hidrelétricas mediante criteriosos estudos de viabilidade socioeconômica e ambiental, com preponderância do interesse nacional sobre interesses locais.

Já discorri sobre as vantagens econômicas das hidrelétricas. Desejo agora comentar as questões que estão sendo levantadas sobre a liberação de metano e de mercúrio pelo agitamento das águas pelas turbinas hidrelétricas.

Este fenômeno ocorre quando lâmina d’água de pequena espessura é agitada, liberando os gases retidos no leito do rio. É o que acontece nas corredeiras e quedas d’água, como é o caso das de São Luiz e outras. Portanto essa liberação já existe naturalmente na natureza.

Quando se constrói uma barragem, o nível da água a montante é elevado, no caso previsto de São Luiz, para 30 metros. A tomada d’água das turbinas ficará acima do volume morto, deixando o leito do rio tranquilo, sem agitação e sem liberação do metano e do mercúrio, tornando-a menor do que a anterior à barragem.

Assim, ao contrário de aumentar a liberação de metano e mercúrio, a construção da hidrelétrica a diminui, contribuindo para a saúde do meio ambiente.

23 de julho de 2015

Origens da Revolução Verde

Certas ações do muito difamado complexo-político-acadêmico-industrial-militar podem, às vezes, resultar em importantes benefícios para a Humanidade.
Embora a opinião pública se manifestasse contra o envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra, o governo estadunidense ajudou os países que lutavam contra Alemanha, Itália e Japão, mobilizando sua indústria e sua marinha mercante para abastecer o Reino Unido e a Rússia, bem como embargando o abastecimento de petróleo ao Japão para aliviar a China.
O ataque a Pearl Harbor mudou a opinião pública e moveu a política governamental na busca de aliados e fornecedores, entre os quais o Brasil, donde surgiu a “Guerra da Borracha”.
Tanto o Brasil, de Getúlio Vargas, quanto o México de, Ávila Camacho, buscavam o desenvolvimento industrial e social. Nosso país foi contemplado, entre outros empreendimentos, com a construção da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional.
O México sofria com as pragas que destruíam suas plantações de trigo. Para ajudar a resolver esse problema, o Vice Presidente Henry Walllace persuadiu a Fundação Rockefeller a trabalhar com o governo mexicano no desenvolvimento agrícola, originando o Centro Internacional de Mejoramiento de Maíz y Trigo – CIMMYT.
Esse órgão governamental financiado pela Fundação Rockefeller contratou importantes pesquisadores em universidades dos Estados Unidos, entre os quais Norman Ernest Borlaug, biólogo especializado em melhoramentos genéticos para resistência a pragas.
Borlaug desenvolveu variedades de trigo meio anão, menos altas do que espécies comuns, de alta produtividade, resistente a pragas. Isto, juntamente com modernas técnicas agrícolas, também introduzidas por Borlaug, transformou o México, de importador, em exportador líquido de trigo.
Norman Borlaug levou posteriormente essas espécies altamente produtivas para Índia, Paquistão e outros países, melhorando consideravelmente a segurança alimentar dessas nações, iniciando a denominada “revolução verde”. 
Por seu trabalho Borlaug foi agraciado, em 1970, com o Prêmio Nobel de Paz em retribuição á importantíssima contribuição para a paz mundial.
Os esforços da Fundação Rockefeller no México foram replicados pela Fundação Ford nas Filipinas em ralação ao arroz, cujas novas espécies altamente produtivas se espalharam pelo Sudeste Asiático com tal eficácia que, mesmo submetido aos rigores da guerra, o Vietnam não sofreu escassez alimentar.
Métodos semelhantes foram desenvolvidos em outras áreas, multiplicando a produção e a produtividade das atividades florestais, agrícolas e pecuárias em quase todos os países, a tal ponto que, hoje em dia, o problema não é mais produzir, mas distribuir estoques de alimentos em crescente produção.
Os métodos desenvolvidos por essa iniciativa político-militar, financiada com recursos da iniciativa privada, que permitiram convocar os melhores talentos acadêmicos, produziram resultados que permitiram contrariar todas as previsões de que a Humanidade seria incapaz de alimentar o sempre crescente aumento da população.
Esse é um dos mais relevantes feitos já alcançados pelo ser humano em todos os tempos e, certamente, muito mais importante do que seus objetivos geopolíticos originais.

10 de maio de 2015

Coincidências entre Hinduísmo e Cristianismo.

O estudo das religiões nos mostra coincidências importantes que revelam uma possível origem comum a todas elas. Uma dessas coincidências é o dilúvio descrito em tradições de muitos povos, mas há outras. Vamos aqui abordar apenas duas delas.
Duas dessas coincidências se dá entre o hinduísmo e o cristianismo:
A primeira, é a tripla personalidade de Deus. No hinduísmo encontramos a trindade denominada Trimúrti, formado por Brama (criador), Vishinu (mantenedor) e Shiva (destruidor), enquanto no cristianismo temos a Santíssima Trindade, formada por Pai (criador), Filho (redentor) e Espirito Santo (propagador).
A segunda coincidência é a fecundação sem relação sexual e a ameaça de morte da encarnação do deus criança. O mundo ocidental conhece bem a estória do nascimento de Jesus, sua fecundação pelo espírito de Deus, a ameaça de morte por Herodes que ordenou a matança de todas as crianças com menos de dois anos de seu reino, a criação por um casal de carpinteiros pobres.
Menos conhecida é a estória de Krishna e, por isso, vamos relatá-la aqui:
Kamsa, filho de Ugrasena, rei de Mathura, que aprisionara o próprio pai para assumir o trono, era um homem mau que se afastara dos ensinamentos do darma, o caminho da verdade superior, a lei natural, a realidade, a filosofia e as crenças de seu povo.
Após o casamente de seu filho Vasudeva recencasado com Devaki, Kamsa acompnhava os nubentes ao palácio dos noivos quando ouviu uma voz alertando que seria morto pelo seu futuro neto, o oitavo filho do novo casal. Assutado com a profecia, o rei Kamsa ergueu o punhal para matar a princesa, sendo impedido pelo filho que implorou pela vida da esposa e prometeu entregar ao pai os filho que viessem a ter.
Kamsa acedeu, mas Vasudeva e Devaki foram mantidos em prisão sob estrita vigilância e seus sete primeiros filhos foram todos impiedosamente mortos. Diante de tanto sofrimento os principes adotaram a prática da yoga e da castidade, porém o amor persistia e era tão forte que, mesmo sem contato físico, as mentes dos amantes se encontraram e geraram seu oitavo filho. A criança, chamada de Bhagavan Sri Krishna, nasceu no ano 3228 AC, no local onde posteriormente foi erguido em sua homenagem o templo Krishnajanmabhoomi. Vasudeva e Devaki conseguiram enviar clandestinamente a criança ao casal de agricultores Yashoda e Nanda que viviam na longínqua aldeia de Gokula.
Kamsa se aconselhava com um homem santo chamado Narada Muni e, através deste, soube ter sido, em outra encarnação, o demônio Kalameni morto por Vishnu. Temeroso de que Vichnu reencarnasse em qualquer das famílias de Mathura, inclusive a própria, Kamsa ordenou que todos os meninos com menos de dois anos forrem mortos. No entanto, Krishna já estava fora de seu alcance.

Krishna é avatar ou encarnação de Brama, Vishnu e Shiva, os componentes da trindade hinduísta, e muito popularizado no Ocidente devido à difusão do Hare Krishna pela cultura hippie.

27 de abril de 2015

Balanço fajuto da Petrobras

Em 22 de abri de 2015, a Petrobras publicou seus balanços contábeis dos trimestres terceiro e quarto de 2014, em cima da hora, depois de meses de delongas, para não incorrer em falta perante órgãos controladores de mercado de valores no Brasil e nos Estado Unidos. O default acarretaria possível cobrança antecipada de todos vencimentos futuros dos débitos da empresa, o que extinguiria sua capacidade funcional.
Estou certo de que a contabilidade da Petrobras e a empresa auditora apresentaram balanço correto do ponto de vista contábil, tendo em vista os números concretos de que dispunham, mas não mostram a verdade que só se revela quando se consideram as reais circunstâncias em que se realizam projetos e aquisições nessa empresa.
Ainda mais, esse balanço não retrata a realidade da corrupção que grassa nas entranhas da Petrobras e de todas as empresas e repartições públicas de nosso país, prática já a muito açoitada nos discursos de Padre Antônio Vieira e que perdura até nossos dias, cada vez mais sofisticada, mais refinada e mais perversa.
O atraso se deveu às dificuldades da Petrobras em se enquadrar nas rigorosas normas da empresa de auditoria, contratada para dar credibilidade aos balanços contábeis perante o mercado e às agencias controladoras, bem como em avaliar prejuízos decorrentes de queda do preço do petróleo, erros de projeto e execução de obras importantes, e de corrupção estimada em três por cento dos custos das contratações denunciadas na Operação Lava-a-Jato.
Em resumo, foram contabilizados 10 bilhões de reais em perdas por queda nos preços do barril de petróleo; 3 bilhões no Complexo de Suape; mais de 9 bilhões na Refinaria Abreu e Lima; quase 22 bilhões no Comperj; acima de 6 bilhões em sobre preço da corrupção. A soma chega a 44,34 bilhões de reais.
Não disponho dos dados que instruíram o balanço da empresa. Cabe-me analisá-lo com olhar do bom senso. Daí decorrem as seguintes conclusões:
1.  Queda do preço do petróleo - Aqui há várias implicações:
a.   A rentabilidade da exploração do pré-sal pela Petrobras fica seriamente abalada, suas refinarias perdem justificativa econômica, o serviço de sua enorme dívida assume grandes proporções em seu fluxo de caixa, toda a estrutura econômico-financeira de seu plano de negócios tem que ser reavaliada, a empresa perde capacidade de investimento e atrasa o pagamento de seus fornecedores, cessam os dividendos aos acionistas, inclusive ao maior deles o Tesouro Nacional, diminuem os pagamentos de impostos e royalties aos governos federal, estaduais e municipais, toda a economia nacional é afetada;
b.  Por outro lado, o imenso poder de geração de caixa do monopólio da Petrobras mantem as possibilidades de recuperação financeira da empresa que, se bem administrada poderá superar as presentes dificuldades;
c.   No Mundo todo, empresas produtoras de petróleo têm seus lucros e planos de investimentos seriamente afetados;
d.  Todos os países importadores são consideravelmente beneficiados;
e.   Arábia Saudita e Emirados do Golfo Pérsico diminuem consideravelmente a concorrência de outros países produtores e do gás e óleo do xisto nos Estados Unidos;
f.    A ameaça de corte do suprimento de gás russo à Europa é especialmente aliviada, o que faz diminuir a pressão política de Putin sobre a Ucrânia;
g.   A balança de pagamentos externos de Iran, Iraque e Venezuela são duramente afetados, o que também tem consequências geopolíticas,
h.  A renda do petróleo de campos dominados pelo Estado Islâmico, vendido no mercado negro, diminui consideravelmente;
i.    Estados Unidos é o grande beneficiado, sua balança comercial é bastante aliviada, e passa a exercer maior poder de pressão sobre a Rússia, no caso da Ucrânia e do Iran no da energia atômica;
2.  Erros em projetos e execução de obras - Este item é extremamente preocupante, talvez até mais do que a corrupção:
a.   O planejamento da empresa se apoia em modelos matemáticos que instruem o julgamento dos técnicos responsáveis pelos projetos, se os algoritmos estiverem errados, o output do computador será aceito como verdadeiro;
b.  No final, há sempre uma decisão humana a ser aprovada em nível de gerencial e pela Diretoria ou pelo Conselho Diretor, se o modelo matemático é inadequado ou há erro humano, ou os dois, as consequências podem ser extremamente dispendiosas e até desastrosas;
c.   A refinaria de Pasadena oferece vários exemplos de decisões erradas e ainda há os projetos Premium I, no Maranhão, e II no Ceará, abandonados após enormes despesas tornadas inúteis, além de outros casos que muito provavelmente possam existir;
d.  Apenas nos casos de Suape, Abreu e Lima e Comperj o rombo foi de 34 bilhões de reais por erros de projeto ou execução;
e.   Perdas dessa ordem retratam a inadequação dos métodos da Petrobras e ou insuficiência de seus técnicos e administradores, ou seja, aquilo que era o orgulho nacional, o alto conceito do corpo funcional da Petrobras fica seriamente abalado;
f.    Mas o erro fundamental não está no pessoal permanente da empresa, mas na ingerência política que divide a administração da Petrobras em feudos onde interesses pessoais e partidários corroem e sugam seus recursos financeiros e morais, é isto que gera descaso, displicência e descompromisso;
3.  Corrupção I – Só 6 bilhões? Difícil de acreditar:
a.   Esses 6 bilhões correspondem a três por cento dos contratos denunciados, a contabilidade é muito simples, se a empresa aumenta o preço para pagar propina, há que considerar os custos da execução da propina;
b.  Nos casos típicos de negociação com instituições públicas, o fornecedor é achacado duas vezes: pelo responsável contratante, para obter o contrato, e pelo cacique do órgão pagador para receber o pagamento;
c.   No caso do petrolão, há um terceiro complicador, o operador do partido político “dono” da diretoria contratante;
d.  Vamos listar alguns itens que vêm à lembrança de alguém, leigo no assunto, mas não cego nem surdo:
                                i.    Previsão para imposto de renda devido ao aumento da receita referente à propina;
                              ii.    Compra de notas fiscais fajutas para justificar a despesa;
                            iii.    Contratação de “laranja” que assuma os riscos da entrega da propina;
                             iv.    Despesas operacionais da negociação da propina, almoços, jantares, hotéis, etc.;
4.  Corrupção IIA Petrobras elabora proposta interna como se fora um dos concorrentes, compara esta proposta com as dos fornecedores e adquire a proposta de melhor custo benefício que se mantenha na faixa entre -15% e +20%, isto é, entre 85% e 120% do preço de referência;
a.   Então, há duas hipóteses:
                                i.    Preços típicos em caso de livre concorrência entre licitantes - Os concorrentes desconhecem os preços uns dos outros e elaboram suas propostas com o melhor custo-benefício e ao menor preço de que sejam capazes, isto coloca a média dos preços concorrentes próximos do nível mínimo, digamos 90%;
                              ii.    Preços cobrados quando não há concorrência devido a cartel – Os concorrentes combinam os preços e escolhem um vencedor, isto coloca a média dos preços próximos do nível superior, digamos 115%;
b.  No caso de livre concorrência a Petrobras pagaria em torno de 90% do preço de referência, mas com o cartel paga 115%, um preço 25% maior;
c.   Se o rombo indicado é de 6 bilhões em propinas de 3 por cento, então a Petrobras pagou 204 bilhões, quando poderia ter pago apenas 160 bilhões;
d.  Na realidade o rombo da corrupção não foi de 6 bilhões, mas de quase 45 bilhões de reais;
e.   E isto apenas nos casos denunciados até agora, muito embora tenhamos tudo para acreditar que haja muito por descobrir;
f.    Isto é dinheiro mais do que suficiente para pagar as propinas exigidas pelos partidos até agora citados no Lava-a-Jato, PT, PP e PMDB, e dar lambuja a todos os demais partidos só para as empreiteiras não ficarem mal com ninguém;
g.   Diante desses 45 bi, os 6 bi são migalhas.
Apesar de todas as adversidades presentes, a nação brasileira e sua maior empresa recuperarão o caminho da prosperidade e do desenvolvimento.
Estamos em um processo histórico, lento, paulatino, cheio de tropeços, mas progressivo de aperfeiçoamento de nossa República. Esse processo se iniciou com a redemocratização, prosseguiu com a Constituição e suas múltiplas emendas. Continua com a criação dos Conselhos da Justiça e do Ministério Público, da promulgação de diversas leis como a da Responsabilidade Fiscal, da Transparência, da Ficha Limpa, e muitas outras.
Esse aperfeiçoamento se revela na independência do funcionamento do Congresso Nacional, do Banco Central, da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. O Tribunal de Contas da União começa a tomar atitudes para fazer cumprir corretamente a Lei da Responsabilidade Fiscal, muito bom sinal.
O Mensalão foi um marco nesse avanço, mas houve mais, os casos do Cachoeira, dos Correios, a cassação do Collor, dos Anões, do Demóstenes, do Vargas e de tantos outros. Este escândalo do Lava-a-Jato ou Petrolão, é o mais importante em termos financeiros, mas não é o único em curso, nem o último a ser revelado, muitos outros virão.

Este é o processo de limpeza da República Brasileira, de purgação de seus pecados, de catarse purificadora pela qual temos que passar até que cheguemos ao estágio necessário de funcionamento correto e digno da vida nacional. Estágio em que o cidadão se respeita e é respeitado.

Tenacidade petista

Embora não comungue dos mesmos ideais, sou, ou era admirador do Partido dos Trabalhadores.
O PT e seu líder máximo são plenos de incongruências: não assinar a Constituição de 88, votar contra o Plano Real e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, manter o imposto sindical, etc., etc.
Apesar disso, o Partido dos Trabalhadores possuía algo raro em outras agremiações, uma áurea que perdeu pelos caminhos do poder (o poder corrompe), a pureza de vestal que sua imagem refletia perante o mundo político.
Ainda assim, admiro muito a tenacidade dos petistas - inclusive de alguns parentes e amigos muito chegados - em não dar o braço a torcer, em não reconhecer a culpa de seus líderes pelas bombas que continuadamente o PT faz explodir em seu próprio colo.
Quando tudo vai ruim - hospitais fechando leitos com enfermos espalhados pelo chão, dengue grassando solta, economia em frangalhos com indústria deteriorada desempregando, criminalidade desenfreada, ensino desorganizado, escândalos de corrupção pipocando a toda hora e em toda parte, governo sem liderança e politicamente desarticulado - os petistas sempre encontram algum NÃO fato, um factoide ou algo requentado, de preferência velho de mais de quinze anos, para dizer aos brasileiros e ao mundo “somos apenas iguais aos canalhas que nos precederam, eles também faziam caixa dois, também recebiam propinas, também eram corruptos”, como se o erro alheiro justificasse ou desculpasse o próprio crime. Tudo numa vã tentativa de desviar a atenção ao perigo que o país corre de desorganização completa da vida nacional, de recessão profunda e inflação galopante, de falências e desemprego.
Mas isso faz parte desse espírito forte e lutador dos verdadeiros petistas. Eu os admiro por isso, mas gostaria que essas pessoas queridas não tivessem que forçar a consciência para continuar essa luta inglória. Preferiria que todo esse brio, toda essa tenacidade se voltasse para a verdadeira luta, para o expurgo de seus corruptos, para a catarse depuradora de ideais conspurcados, para readquirir a força moral com que o partido participou da redemocratização do país e liderou o impeachment do Collor, para a refundação do Partido dos Trabalhadores nos ideais de pureza republicana que tanto encantaram os simpatizantes e tanta inveja causaram aos adversários.

O Brasil precisa desse PT recriado, expurgado e depurado. Serão os petistas capazes de fazer isto? Estão à altura deste desafio histórico? Ou suas lideranças estão de tal modo comprometidas que impossibilite essa homérica tarefa?