20 de março de 2015

Petrobras – A reestruturação necessária

Em entrevista à revista DINHEIRO, edição de 18/03/2015, o navegador, empresário e economista Amyr Klink, comparando empresa em dificuldades com barco fustigado pela tempestade, respondeu, entre outras, às seguintes perguntas:
DINHEIRO: Como navegar na tempestade, ter frieza para lidar com o perigo?
AMIR KILNK: O senso de urgência determina isto. Esse é o problema, por exemplo, de uma empresa em dificuldade. Num caso assim, quando você é empregado e está ganhando seu salário, sabe que que está difícil, mas não tem aquela urgência de resolver. O pensamento deve ser: é hoje que nós temos que solucionar o problema. Não é amanhã. É já. Na crise em alto mar, ninguém dorme até resolver. Não tem outro jeito. Deu um problema? Enquanto não resolver, ninguém dorme. Ninguém come.
DINHEIRO: Se a Petrobras fosse um barco, no meio de uma tempestade, que senso de urgência deveria prevalecer?
KILNK: Neste caso, a solução é: abre o registro, afunda e aciona o seguro. Faz outro. Lá, eles não têm senso de urgência. Uma empresa que detém um monopólio dessa escala não pode ser competente. Já trabalhei com eles, já tive patrocínio deles, é um inferno. Funcionário da Petrobras num canteiro de obras olha para o funcionário terceirizado com um desdém deplorável. Esse tipo de orgulho discriminador, classista, não faz bem para nenhuma empresa. Tem que fechar a Petrobras e abrir quatro empresas novas, divididas por áreas. Transporte, exploração, refinaria. Há modelos interessantes. Não precisa só olhar para a Noruega. Tem que estudar. Mas não pode ser um modelo baseado no monopólio puro. Senão a gente vai para a Venezuela.
Se bem que Amyr Klink não esteja certo em tudo do que disse, suas ideias nos proporcionam matéria suficiente para refletir longamente sobre a empresa orgulho dos brasileiros.
É claro que a Petrobras possui corpo funcional de primeira linha, com alguns muito abnegados. Mas também é certo que a muitos deles falta senso de urgência, de comprometimento e que alguns hajam com arrogância de quem tenha rei na barriga.
Outro ponto é o monopólio em si e a imensidão dele no caso da Petrobras.
Alguns dizem que monopólio estatal é útil para dar funcionalidade a políticas de governo.
Discordo. Políticas por meio de estatais, são discricionárias, não passam pelo crivo dos representantes do povo, e por isso mesmo, frequentemente, causam grandes problemas a essas empresas e, por fim, ao povo e ao interesse nacional.
Se o governo quer subsidiar agricultura, comprador de casa própria ou consumidor de gasolina, deve fazê-lo diretamente ao cidadão a ser beneficiado. Mas quando o fizer será a todos para que não cometa injustiças, ou não abra portas à corrupção.
Péssimos resultados de más administrações se ocultam sob alegação de gastos no cumprimento de políticas de governo
Políticas de Estado devem ser exercidas exclusivamente por meio de orçamento previamente discutido e aprovado pelo Congresso Nacional.
O mesmo princípio cabe ao desenvolvimento tecnológico necessário à exploração do pré-sal. Se é política de governo a obtenção de autossuficiência nacional na produção de petróleo, e este não é encontrado em quantidade suficiente no território nem no mar continental, é forçoso procura-lo em mares profundos.
Para isto se torna necessária nova tecnologia para cuja pesquisa e desenvolvimento se requerem pesados e demorados investimentos, os quais devem, também ser objeto de proposta orçamentária debatida e aprovada pelo parlamento.
O que não deveria ser admitido é a sobrecarga do consumidor, o cidadão comum, que paga altos custos de fretes cumulativos embutidos em todos os preços, cujo insumo maior é o combustível superfaturado para cobrir custos de políticas governamentais não aprovados pelo Congresso. Isto sem falar em propinas a funcionários e políticos corruptos.
Se assim fosse, a Petrobras seria saneada de obrigações que não lhe competem e poderia manter o foco, com maior zelo e eficiência, em suas atribuições específicas: pesquisa, exploração, refino e oleodutos entre estes dois últimos. Ainda melhor se também se livrasse de atividades fora de seu escopo, como geração de energia, distribuição de combustíveis e produção de álcool e petroquímicos.

Esta grande crise por que passa a Petrobras pode ser a grande oportunidade de reestruturação e consolidação de que tanto necessita.

14 de março de 2015

O petrolão dissecado

A lei das concorrências manda explicitar os requisitos mínimos a serem atendidos pelos bens e serviços adquiridos por órgãos públicos. Também ordena contratar o proponente de menor preço, e que a concorrência seja pública e aberta a qualquer um que cumpra exigências gerais permanentes. Sendo as licitações públicas e de acesso geral, principalmente nos pregões pela Internet, é praticamente impossível a formação de carteis de fornecedores, de sobre preços e de propinas. O Estado adquire pelo menor preço e a moralidade fica preservada, mas o concorrente que oferece o melhor custo/benefício certamente fica de fora. É um convite à mediocridade.
No intuito de dinamizar as operações da Petrobras e permitir a aquisição da oferta de melhor custo/benefício o governo Fernando Henrique editou decreto específico para que a Petrobrás faça aquisições por meio de carta-convite a fornecedores que satisfaçam determinados critérios econômico-financeiros e tecnológicos. A Petrobras elabora uma proposta como se fora um dos concorrentes, compara esta proposta com as dos fornecedores e adquire a proposta de melhor custo benefício que se mantenha na faixa entre menos quinze a mais vinte por cento do preço da proposta de referência.
Como é muito pequeno o número dos fornecedores que satisfazem os rigorosos critérios econômico-financeiros e tecnológicos estabelecidos, todas as empreiteiras se conhecem e frequentemente formam parcerias em projetos nacionais e internacionais, inclusive com a Petrobrás, é muito fácil a formação de cartel que determine qual dos concorrentes será o vencedor na próxima carta-convite. Os demais ofertarão preços superiores ou pior custo-benefício, garantindo a vitória do escolhido.
Os critérios de elaboração da proposta paradigma são rígidos, mas plenamente conhecidos pelos membros do cartel, para os quais é fácil situar a proposta vencedora de cinco a dez por cento acima do preço de referência, quando poderia ser bem mais abaixo. Este é o sobre preço de dez a quinze por cento usufruído pelo cartel em todos os contratos com a Petrobrás. Como a maioria dos funcionários da Petrobras são honestos e não aceitam propina, as empreiteiras embolsam todo o lucro mais o sobre preço. É do máximo interesse das empreiteiras preservar o status quo e é por isso que se mostram tão solícitas em atender pedidos e oferecer propinas a funcionários envolvidos na licitação e a políticos. Algumas propinas se realizam por via de doações políticas legais, embora derivadas de procedimentos absolutamente criminosos.
Minha sábia sogra dizia que paredes tem ouvidos e matas enxergam muito bem, o que torna impossível preservar segredos. Todas as empreiteiras do cartel sabem de tudo, todos os políticos que pedem doações eleitorais a empreiteiras e funcionários corruptos sabem de tudo e, é claro, a alta administração do governo, das repartições e das estatais também sabem de tudo. Não vejo ninguém com vendas e tampões nos olhos e ouvidos. Não existem segredinhos de Polichinelo no mundo político.
Esse é o ambiente em que funcionários - honestos, mas descompromissados, cada qual cumprindo estritamente sua parte no processo, vivendo com tranquilidade suas vidas e deixando que outros vivam tranquilamente as suas - obedecem tranquilamente decretos e regulamentos.
Mesmo que alguns funcionários corretos queiram corrigir anomalias, se deparam com a certeza de que as instâncias de denúncia, superiores hierárquicos e órgãos de auditagem ou correição não são confiáveis. Quase sempre os bem intencionados acabam punidos por “desconformidade”.
Esse é também o ambiente que propicia a proliferação dos germes da desídia, do desleixo, da falta de ética, da corrupção e do crime.
São os funcionários da Petrobras honestos? Ah, sim, são.
Excetuando alguns corruptos, a grande maioria é simplesmente honesta. Nem todos são, mas a grande maioria é  comprometida com a empresa, com os ideais que a criaram e com seus objetivos primordiais: pesquisar, extrair, refinar e tornar o Brasil autossuficiente em petróleo e combustíveis seus derivados.
O povo brasileiro espera e apoia esse corpo de funcionários abnegados que - em movimento interno silencioso, perseverante e firme - induza a direção da empresa a estabelecer canais e instâncias confiáveis que assegurem a conformidade dos atos e procedimentos da empresa com a ética e com a Lei.
O decreto de Fernando Henrique não é um mal em si. Pelo contrário, dinamiza os procedimentos e permite a busca da excelência em uma empresa extremamente dependente de alta qualidade e tecnologia avançada. Se a Lei da concorrência induz à mediocridade, esse decreto premia a melhor adequação.
A impunidade sempre foi e será o principal indutor do crime. A condenação dos culpados do petrolão servirá de exemplo e inibidor de empreiteiras, funcionários e políticos que almejem lucro criminoso.
O povo brasileiro também confia, apoia e espera que Polícia Federal, Ministério Público, Justiça e Comissão Parlamentar de Inquérito passem a limpo o escândalo do petrolão, separem o joio do trigo e punam os culpados de mais um escândalo que precisamos purgar para que a alma brasileira seja lavada.

25 de fevereiro de 2015

Nau à deriva.

Quem é o responsável? O comandante é sempre o responsável pela vitória ou derrota, por chegar a porto seguro ou naufragar, e é sempre o último a abandonar o navio. A culpa de comandante anterior não elimina a responsabilidade do atual. Vejamos alguns comandantes:
Sarney conduziu o Brasil durante a redemocratização, mas aumentou a inflação a níveis nunca vistos até então, e não combateu a corrupção. A corrupção aumentou.
Collor iniciou a modernização do Estado, mas paralisou o país ao sequestrar as economias dos cidadãos e das empresas, e não combateu a corrupção. A corrupção aumentou mais.
Fernando Henrique criou o Plano Real, mas foi responsável pelo Apagão, e não combateu a corrupção. A corrupção aumentou mais ainda.
Lula converteu várias bolsas na grande Bolsa Família, mas deixou o Mensalão acontecer na sala ao lado e, pelo que estamos sabendo, não evitou e não combateu a corrupção nas estatais, principalmente na Petrobras. Pelo contrário, promoveu a corrupção generalizada ao leiloar cargos em repartições e estatais. A corrupção extrapolou.
Dilma prosseguiu com Bolsa Família. Ainda ministra de Lula e depois como presidenta, controla a Eletrobrás na qual criou caos financeiro e energético, não combateu a corrupção nas estatais, principalmente na Petrobras. Pelo contrário, amamentou a metástase da corrupção com a distribuição de cargos a vilões comprovados. A corrupção explodiu.
Em doze anos de governo do PT, seus dois comandantes supremos dividiram ministérios, repartições e estatais em satrapias a cargo de políticos sedentos por se enriquecerem a qualquer custo. Lula e Dilma colocaram ratos a tomar conta do navio, comer mantimentos, corroer o casco, infectar a tripulação e deixá-lo à deriva em mar encapelado.
É esse barco que deve ser conduzido a porto seguro. Para isto se requer comandante à altura do desafio. Será Dilma capaz de fazer navegar tal barco em tal oceano?
O que estamos presenciando é o esgarçamento dos sistemas, o da corrupção, atacado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Judiciário, e o do governo que perde capacidade de conduzir o país.
A corrupção na Petrobras será conduzida pela Justiça e todos nós acreditamos que corruptos e corruptores acabarão na cadeia. Será a sanitização da Petrobras e exemplo para outros malfeitores. Felizmente, a Petrobras conta com um quadro funcional correto e competente que saberá extirpar corpos infectados de seu meio e recuperar o prestígio da empresa.
  Já a governabilidade, longe de depender das boas graças da base parlamentar em um Congresso venal, manhoso e exigente de recompensas, dependerá fundamentalmente da conquista de apoio popular, não por passes de mágicas marqueteiras, mas por atos que restaurem a credibilidade perante o mercado, principal formador de opinião, que se manifestará nas prateleiras e nas etiquetas dos supermercados.
A revolta dos caminhoneiros é mais uma faceta de um monstro de muitas caras que ameaça a governabilidade. A atitude do governo perante as manifestações dos caminhoneiros será crucial para enfrentar as prometidas manifestações do próximo quinze de março. Terá Dilma a firmeza de atitudes aliada à habilidade política à altura desse enorme desafio?
Joaquim Levy tem que correr a toda velocidade atrás do prejuízo que se acumula há mais de oito anos, vencendo barreiras, as amigas ainda mais terríveis que as inimigas. Mas ele corre só. Sem a liderança da presidenta, firmemente e declaradamente empenhada na responsabilidade fiscal, na recuperação da credibilidade, nada de bom vai acontecer e a deterioração da governabilidade prosseguirá até um fim melancólico que não sabemos qual será.
Vamos acompanhar a odisseia dessa nau em oceano tormentoso.

11 de janeiro de 2015

What are Carl Marx proposals?

Published in http://www.quora.com/
Karl Marx developed an important criticism of the capitalism, but what did he propose instead?
I am especially proud of one of my granddaughters and her husband. Both mended a BA in Economics with master's, doctoral and applied for teacher positions in a Federal University, where they are teachers specialized in Carl Marx. Needless to say that they declare themselves communists, but they consider that the regimes in Soviet Russia, North Korea and other places have nothing to do with Marx's vision of a communist society.
Sometimes I can induce them to talk about economics, in particular on the ideas of Marx, whose concepts of Socialism and Communism, in my view, are utopian and vague, possibly unrealistic, nothing to compare with the proposals and deeds (or misdeeds) of Lenin and Stalin.
The conclusion we reached at is that Carl Max was a powerful critic of Capitalism, but did not propose any concrete alternative to a system, that according to his political activism, he hated so much.
My belief is that, although the nineteenth century capitalism has suffered the evils mentioned by Marx, there was a great evolution since then, mainly a fusion of Capitalism with Social Democracy, and even in the most capitalist countries the influence of the State is so important you can say that full Capitalism does not exist anywhere. Perhaps it can not exist anyway.
In any event, we have not yet found any other viable system that could replace Capitalism. At least up to now.

2 de dezembro de 2014

A Salvação do Glorioso Botafogo


Dois milhões de torcedores botafoguenses doando dez prestações mensais entre sete e quatro mil reais permitirão ao Clube arrecadar oitocentos milhões de reais, conforme a tabela abaixo.

Faixa
 Número de
torcedores
contribuintes
 10 Prestações de
R$
 Total das
contribuições
R$
1
       1.000.000
               7,00
    70.000.000,00
2
          500.000
             15,00
    75.000.000,00
3
          250.000
             31,00
    77.500.000,00
4
          125.000
             62,00
    77.500.000,00
5
            62.500
           125,00
    78.125.000,00
6
            31.250
           250,00
    78.125.000,00
7
            15.625
           500,00
    78.125.000,00
8
              7.812
        1.000,00
    78.120.000,00
9
              3.906
        2.000,00
    78.120.000,00
10
              1.953
        4.000,00
    78.120.000,00
Total
       1.998.046

  768.735.000,00

Os contribuintes receberão homenagens e direitos, crescentes conforme as faixas de contribuição, a serem definidos. Os direitos devem ser principalmente simbólicos para não comprometer a situação econômica do Clube.

Atrativos poderão ser sorteio de ingressos para jogos do Glorioso, camisas autografadas, fotografias e almoços ou jantares com jogadores e torcedores célebres.

Torcidas de outros clubes brasileiros e internacionais devem ser incentivadas a participar. O público feminino deve ser preferencialmente aliciado para atrair ainda mais o masculino.
O Clube deverá promover discussão pública para recolher sugestões e ideias para realização deste projeto.


Esta e outras campanhas serão lançadas para sanar as dívidas, reestruturar, ampliar e fidelizar os quadros atlético e social contribuinte do Glorioso Time do Botafogo.

27 de novembro de 2014

Renda Mínima Incondicional e Universal

Refletindo a respeito do que se tem falado e escrito sobre a eliminação da miséria, redução da pobreza e diminuição da desigualdade de renda entre classes sociais, bem como os métodos propostos para solução destes graves problemas, entre os quais diversos programas assistenciais, seguros e impostos de renda negativos chego à conclusão de que há absoluta necessidade de instituição de Renda Mínima Incondicional e Universal.
Antes de entrar no mérito da renda mínima, cabem duas perguntas:
1.   Deve o Estado prover alguma coisa a todos os cidadãos sem cobrança direta?
2.   A quem compete o dever de socorrer um recém-nascido abandonado cujos pais e parentes hajam falecido?
Para o primeiro caso, basta dar exemplos muito simples: as cidades oferecem a todos os que queiram utilizá-las ruas, avenidas e parques; o Estado se encarrega da Segurança Nacional, realizada pelas Forças Armadas, e da Segurança Pública, proporcionada pela Polícia. Estas despesas são cobertas por tributos gerais sem vinculação direta com os serviços prestados que são gerais e gratuitos.
No caso do bebê, estou certo de que haverá quem o queira socorrer e criar. Mas, certamente, cabe ao Estado regulamentar, promover e apoiar a adoção. Se assim é, o Estado deveria ajudar financeiramente os pais adotivos. O mesmo se aplica a outros inválidos desassistidos e carentes.
O pensamento liberal pode desejar o Estado mínimo, mas não pode dispensar o Estado ou, pelo menos, suas funções essenciais, principalmente a Justiça e as Leis que permitam o funcionamento desta. Concluímos, portanto, que o Estado deve existir e deve prover serviços essenciais, inclusive a assistência econômica mínima para garantir subsistência e dignidade aos desvalidos.
Quando falamos em dar dinheiro a pobres, nos vem à lembrança a ideia de incentivo ao descanso, mas não podemos esquecer que os pobres são os menos instruídos e que o maior convite à inércia é o desconhecimento das oportunidades, benefícios e orgulho do trabalho qualificado. Desta forma, nenhum programa de erradicação da pobreza frutificará sem apoio intenso da educação para o trabalho e o empreendimento.
Agora, não cabe ao Estado julgar caso a caso quem merece a assistência financeira. Isto implicaria em extensa burocracia e, certamente, em corrupção. Não importa se o indivíduo tem ou não necessidade do subsídio. Todos terão direito a recebê-lo. Se a Lei deve ser universalmente aplicável, então, esse tipo de assistência será também universal.
A Renda Mínima (RM) atende ao dever do Estado de atender necessidades econômicas mínimas à dignidade humana e será o valor pago, incondicional e universalmente a todo e qualquer indivíduo desde a gestação até a morte.
Esse valor deve ser suficiente para o custeio, sem necessidade de quaisquer outros subsídios, das funções – nutrição, proteção e reprodução – e necessidades básicas de vida decente e digna do indivíduo - educação, alimentação, vestuário, moradia, transporte, higiene, saúde e aposentadoria ou seguros correspondentes.
A renda mínima deve ser estabelecida pela média das necessidades básicas de toda a população. Também deve ter valor único, ser incondicional e universal para evitar a burocracia e a corrupção induzidas pelo estudo de casos individuais.
A renda mínima substitui e elimina os gastos de execução de todos os demais programas sociais fornecidos pelo Estado.
Como dito acima, o cálculo da RM deve incluir prêmios de seguros essenciais, de tal forma que desemprego, aposentadoria, despesas de saúde e outros não mais serão encargos do Estado e passarão a ser responsabilidade do indivíduo devidamente garantido por seguradora de sua própria escolha. É claro que as seguradoras devem ser garantidas elas próprias por resseguros e o sistema securitário adequadamente regulado. Dormimos mais tranquilamente quando sabemos que guardas-noturnos velam por nosso sono; assim, confiaremos melhor no mercado securitário se este for adequadamente vigiado.
O valor da RM será estabelecido em levantamento censitário das despesas médias dos indivíduos de uma família padrão - dois adultos e duas crianças – de modo a permitir a correta adequação do orçamento familiar.
No entanto, a RM deve ser mantida em nível intermediário, entre o imediatamente superior ao da pobreza extrema e o imediatamente inferior à renda de uma família padrão sustentada por dois adultos, cada qual recebendo um Salário Mínimo (SM) vigente no momento do início da transição entre os regimes atuais e o da plena vigência da RM.
Desta forma, a renda mínima de cada membro da família padrão será inferior a um quarto daquele salário mínimo. É muito provável que o aluguel ou prestação de compra de casa rateada por duas ou mais pessoas será menor do que por apenas uma. O mesmo se aplica à alimentação, energia, e outras facilidades quando compartidas. Desta forma, a vida econômica do indivíduo solteiro será mais dispendiosa, promovendo a agregação familiar.
Ao mesmo tempo, tanto a renda individual quanto a familiar estarão em tal nível que, embora atendam as necessidades mínimas, ainda requeiram renda adicional para conforto e autoestima.
O objetivo é que a renda mínima ampare os que não possam trabalhar devido a desemprego, incapacidade, idade menor ou velhice, doença, deficiência ou compromissos com cuidados a filhos pequenos, ao mesmo tempo em que sirva de estímulo à busca de aumento da renda pelo trabalho.
Os sistemas que retiram o subsídio quando o indivíduo obtém renda própria é contraproducente e desestimulador. A renda mínima será permanente e qualquer renda proveniente do trabalho se adiciona a ela, melhorando o padrão de vida do trabalhador, incentivando constante qualificação, reciclagem e aperfeiçoamento.
O custeio do programa de RM será realizado pelos seguintes meios:
•         Eliminação de todas as despesas de cunho assistencial do Estado;
•         Eliminação de todos os tributos incidentes sobre trabalho e salário substituídos pela aplicação de dois tributos complementares sobre: faturamento bruto e renda ou lucro líquidos.
Em prazo previamente estabelecido, o mais curto que seja possível, o salário mínimo será eliminado. O valor do trabalho será estabelecido por acordo entre empregado e empregador, sem adicionais de qualquer espécie obrigatório por lei, de modo a manter a empresa competitiva.
Após um período de transição, todos os serviços sociais custeados pelo Estado serão descontinuados e a economia decorrente transferida para cobrir as despesas da RM. Entre os serviços a serem interrompidos contam-se, por exemplo: aposentadoria, defensoria pública, seguro-desemprego, medicina e educação.
O Estado será liberado de todas as atribuições que não lhe sejam intrínsecas, restringidas a: Defesa Nacional, Diplomacia, Justiça, Fisco, Polícia, Saúde Pública, Regulação do mercado e os serviços essenciais ao funcionamento dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
A propósito, embora esta não seja a preocupação central destas reflexões, os funcionários de Estado - por exemplo: juízes, militares e auditores - serão concursados, admitidos e remunerados em carreiras de Estado uniformes e remuneradas em níveis compatíveis do mercado. Os funcionários auxiliares dessas funções de Estado – por exemplo: secretários, escriturários e porteiros – serão contratados, admitidos e remunerados conforme a média das regras, funções e valores semelhantes no mercado, visando sempre à agilidade, qualidade e continuidade dos serviços. De qualquer forma, o funcionário público não disporá, às custas do Estado, de serviços tais como assistência médica, aposentadoria e outros, devendo neste aspecto igualar-se aos demais cidadãos.
Uma vez que o salário mínimo seja abolido, as instituições empregadoras do mercado estarão livres para acordar com seus empregados as respectivas remunerações. Qualquer benefício adicional à RM proveniente de remuneração do trabalho dependerá da política de Recursos Humanos refletiva da visão estratégica de cada empresa. Evidentemente, as mais criativas e inovadoras oferecerão os maiores atrativos.
O trabalho de alta qualidade e desempenho sempre foi e sempre será bem avaliado e bem pago, como é o caso de artistas, desportistas e executivos realmente talentosos.
O mercado encontrará o nível “normal” de remuneração de cada competência: não poderá ser ínfimo por não atrair a quem tenha renda mínima sem qualquer esforço; não será exorbitante pela pressão sobre lucratividade e competitividade; mas tenderá a ser o suficientemente grande para atrair talento, competência e capacidade de apresentar resultados.
Sendo o valor do trabalho estabelecido dessa forma, mesmo o trabalhador menos qualificado poderá encontrar colocação, tornando o pleno emprego próximo de ser atingido.
Os efeitos da criação e universalização da RM, extinção dos encargos assistenciais do Estado e eliminação do SM seriam importantes no funcionamento do Estado, na economia e na vida dos cidadãos pelos seguintes motivos:
1.           Eliminaria a miséria e a pobreza extrema;
2.           Diminuiria a disparidade de renda;
3.           Ampliaria o mercado consumidor de produtos e serviços básicos na faixa mais inferior da pirâmide econômica, alavancando toda a economia;
4.           Quanto melhor qualificado e mais valioso o trabalho, maior o salário acordado entre empregado e empregador;
5.           O trabalhador sem qualificação ainda encontraria oportunidade de emprego e acréscimo de sua renda mínima. Por outro lado, uma vez que as necessidades básicas estarão atendidas, por mais ínfimo que seja o salário terá que ser suficientemente atrativo para demover o trabalhador desqualificado da inércia.
Em curto tempo de adaptação o livre mercado, minimamente regulamentado, resolverá os problemas de oferta e prestação correta e barata de serviços tais como educação e saúde, permitindo a livre escolha pelos usuários entre diversos concorrentes.
É possível que, em localidades pequenas e remotas, não haja atrativos para os fornecedores desses serviços. Tais casos devem merecer tratamento especial e específico, sem prejuízo de um programa que deve ser universal, incondicional e desburocratizado. O terceiro setor deve ser estimulado, mas não financiado, pelo Estado a atender essas necessidades excepcionais.
Ainda, o indivíduo não educado ou inconsequente pode não saber distribuir corretamente sua renda entre despesa supérflua e investimento no futuro, desprezando a contratação de seguros de saúde, emprego e aposentadoria, ou de formar poupança para momentos de maior dispêndio e emergências.
Nestes casos, a sociedade deverá decidir se aposta na educação e no discernimento de cada um, amparada na nomeação de tutores para os menores e incapazes, ou se mantém instrumentos assistenciais, reguladores e controladores com a consequente burocratização, altos custos e corrupção.
O programa de renda mínima deve ser antecedido e acompanhado por extensa e intensa campanha educativa sobre responsabilidade financeira e administração do orçamento familiar. O indivíduo deve ser livre para gastar seu dinheiro como desejar, mas absolutamente responsável pelos atos que cometer.
Não cabe ao Estado ser tutor de cada indivíduo, o que conduz ao controle e cerceamento da liberdade. Cada indivíduo deve ser responsável por conduzir sua própria vida, com discernimento, dignidade e liberdade. Afinal, cada pessoa deve ter livre arbítrio e responsabilidade sobre seus atos.
A grande maioria da população sabe se conduzir corretamente, aprende a usar cartão de débito e crédito, Internet e telefone móvel, e usa tais instrumentos em sua vida rotineira, assimila a cultura da responsabilidade pelas próprias atitudes e discernimento financeiro, coisas que pode aprender aprende no lar, na escola e na mídia. Portanto, nada impede que o sistema de renda mínima funcione bem e cada vez melhor.
Os programas sociais, entre os quais se incluem saúde, educação e aposentadoria, são os maiores sorvedouros de recursos do Estado que, para atendê-los, monta estruturas burocráticas monstruosas, caras e corruptas. Liberar o Estado desses encargos o tornaria mais dinâmico, mais eficaz e mais benéfico.
A iniciativa privada, com certeza, é capaz de produzir mais e melhor, proporcionando maior satisfação ao cidadão consumidor.
A renda mínima, associada à eliminação dos entraves burocráticos, encargos e despesas para-salariais das empresas e assistenciais do Estado permitirá o funcionamento de uma sociedade menos sobrecarregada de impostos, mais responsável, mais produtiva, mais equânime, mais afluente e mais feliz.
Cabe à sociedade decidir se pretende que o Estado nos mantenha, a todos, escravos dos políticos no poder ou se acredita na autonomia e na dignidade do indivíduo.