16 de novembro de 2017

O Enterro de Quebra Pote



Sebastiao Imbiriba
05/05/2002
Josias era homem grande e forte. Sertanejo da Paraíba. Usava sua grandeza e força para impor respeito a todos. E todos o chamavam de Quebra Pote.
Foi quando ele teve que enfrentar um engraçadinho que queria abusar da Izildinha. Um tal de Carlinhos, desordeiro conhecido na redondeza. Se engraçou pros lados da Izilda, filha da irmã de Josias. Foi lá, paquerou, namorou, abusou e abandonou. Izildinha vivia pelos cantos chorando abandono e gravidez.
Josias soube do fato por sua irmã, mãe da menina. Bem, nem tão criança assim, embora, aos vinte anos, ainda fosse virgem. Mas, para Josias, a sobrinha não passava de recém-nascida. Quando soube, Josias se encheu de raiva. Foi até a casa dos pais de Carlos. O desordeiro não estudava, não trabalhava. Tudo o que fazia era perturbar o bairro todo e aborrecer os pais, embora estes tenham tentado mil vezes expulsá-lo de casa. Josias foi chegando e foi quebrando. Carlinhos, também conhecido como Carlinho Estripulia, estava na cama com a mulher do vizinho, na cama do vizinho, é claro. Foi quando ouviu o estardalhaço. Pensou que fosse o marido e saiu pela janela. Vestiu as calças mas esqueceu cueca e sapatos. Foi se esconder na casa dos pais.
Entrou e viu toda aquela desordem. O pai, sentado no chão, segurava a orelha esquerda. Josias quase a arrancara com tapa que o tornou surdo daquele lado. A mãe choramingava, sentada num banquinho, tentando imaginar o que seu rebento fizera desta feita.
Carlinhos não teve tempo de dar meia volta. Foi agarrado pela goela e atirado ponta-cabeça conta a parede. O algoz levantou a vítima pelos cabelos e o colocou sentado em cima da mesa da sala e disse: “Repara bem seu filho da puta. Tu vais casar com a Izildinha. Se ela vier me fazer alguma reclamação, é isto o que vai acontecer contigo”. Pegou uma tranca atrás da porta e deu certeiro golpe num grande cântaro em cima da bancada da pia. Foi água e pedaço de barro para todo lado.
Carlinhos Estripulia casou com Izildinha e Josias ganhou o apelido de Quebra Pote. Assim era Josias. Todos os respeitavam. Quando queriam se referir a alguém realmente brabo, falavam de Quebra Pote. E se tinham um problema que só se resolve com brabeza, era Quebra Pote que chamavam para resolver.
Um belo dia, Quebra Pote escorregou, caiu numa vala e quebrou o pescoço. Agora todo mundo amava Quebra Pote e não tinha quem lhe quisesse mal. Defunto importante, considerado. Foram logo avisar todo mundo: delegado, padre, dono do cartório e até o deputado que viera, em companhia do sobrinho, candidato a vereador, fazer campanha política.
Quando o deputado chegou foi aquele alvoroço. Se a casa já estava cheia, agora já não se podia andar. A cachaça corria solta e mais da metade já estava para lá da estratosfera. Cavaquinho e violão animavam o velório. Dançavam homem com homem, mulher com mulher. Mas abriram caminho para o deputado chegar até o caixão do defunto lá no fundo da sala. Ali já estavam delegado, padre e dono do cartório, que foram afastados para dar lugar ao deputado e ao sobrinho candidato.
Enquanto isso os três filhos de Izildinha corriam de um lado para outro se empurrando e pisando os calos de todo mundo. Um tinha a cara do carteiro, outro era parecidíssimo com o entregador da farmácia e o caçula todo mundo achava que só podia ser filho do próprio Quebra Pote. Afinal de contas, se Izildinha tinha concedido gentilezas gratuitas a carteiro e entregador de farmácia, porque não retribuiria a quem lhe havia prestado favores tão relevantes. Mas ninguém tinha nada com isso e Carlinhos Estripulia não se atrevia a protestar. A lembrança do pote quebrado não o permitia.
Então chamaram o fotógrafo. Lá veio ele, de colete e tudo, tirar foto do deputado com o defunto. Mas só saia o deputado. O defunto ficava escondido no caixão. Trouxeram uma cadeira para o artista subir, mas não dava certo. “É o ângulo”, alegou o fotógrafo. Experimentaram levantar um pouco a cabeça do caixão. Nada. Então, enquanto uns levantavam a cabeça, outros baixavam os pés. Assim, o rosto de Quebra Pote aparecia por traz do vidro, à altura do peito do deputado. Ficou o deputado atrás, sobrinho candidato de um lado e padre d’outro. Foto histórica batida e repetida. Não se podia perder a efeméride.
Depois das fotos, levaram o deputado e o sobrinho candidato a vereador para comer pupunha com café e cumprimentar a mãe de Izildinha, a irmã do falecido na pequena casa ao lado, quase anexa. A mulher sofrera um acidente e, há muitos anos, vivia em cadeira de rodas. “Ô seu deputado. Que bom que o senhor veio no enterro do mano velho. Está vendo só. Não adiantou. O danado vai enterrar a brabeza dele toda em baixo da terra. Aquele desgraçado. Podia ter arranjado casamento melhor pra Izildinha. Mas o que ele queria era passar ela na cara também. Eu já fui lá ver o corpo. Mas esta cadeira não ajuda e, com aquele povo todo que vem só para tomar pinga, não posso nem me despedir do safado. Que Deus o guarde. Bem longe de mim”.
Ai, chegou a hora do enterro. Tinha de ser numa colônia mais de hora e meia distante da cidade. Era onde a família tinha castanhal e fazenda de gado. O cemitério ficava na vila, ao lado da capela. Foram três ônibus fretados. Mais o caminhão que carregava o defunto com os três filhos de Izildinha pulando em cima, além de Zé Caninha que, como sempre e o nome indica, não se aguentava em pé e se arriou atravessado com a barriga por cima do caixão. Quebra Pote não reclamava de nada.
Quando descarregavam a encomenda, o caixão despencou e a tampa se abriu. Quebra Pote foi de cara no chão. Foi um oh! geral. Todo mundo consternado. Parado, olhando a cena. Zé Caninha correu para ajudar e tropeçou. Caiu por cima do de cujus. O deputado viera na boleia do caminhão, junto com o cunhado do falecido. Não sabia o que fazer. Mas não podia faltar às expectativas. Então deu ordens para limparem o corpo de Quebra Pote e o recolocarem no caixão. Foi aplaudido.
O féretro atravessou a vila. Bode Velho, cabo eleitoral de antigo aliado do deputado, não perdeu a deixa. Juntou umas mulheres que vieram num dos ônibus e começou a dar vivas ao deputado e ao sobrinho candidato a vereador. Ele gritava e as mulheres aplaudiam. Por todo o caminho.
O caixão foi colocado ao lado do buraco já cavado. Era onde a mãe do falecido havia sido enterrada anos antes. A ossada aparecia. Alguém falou: “Não pode enterrar em cima”. Mão de Paca pulou no buraco e jogou para fora a caveira de Dona Betinha. “Segura aí”, falou ele. Quem segurou foi Zé Caninha que ficou acariciando a peça.
O padre encomendou o defunto. Foi discurso rápido. Ele tinha que fazer casamento na cidade. Bode Velho aproveitou e fez o comício. “Nós estamos aqui para homenagear três pessoas. Um macho morto e dois políticos que nós estamos comprometidos. O deputado nós elegemos da outra vez. Viva o deputado! Agora é a vez do sobrinho candidato a vereador. Promessa é promessa e nós vai cumprir. Viva o vereador! O defunto o padre já encomendou. Não sabemos se vai para o céu. Temos que esperar sete dias. Não sabemos se vai ou não. Depois de sete dias a gente sabe”.
Alguém empurrou Zé Caninha na beira da cova. Ele se virou para trás, tentando se equilibrar. “Vai empurrar tua mãe, seu bosta de merda”. E sacudia o crânio a cima da cabeça, ameaçadoramente.
Começaram a baixar a urna mortuária. Uma dificuldade. Não dava certo. Alguém pulou dentro para apoiar melhor. Era de novo Mão de Paca. O caixão caiu. O ajudante perdeu a unha do dedão e saiu da cova ganindo de dor. Os filhos de Izildinha pulavam a cova de um lado para outro. Quando viram o dedão escorrendo sangue, não paravam mais de rir. Caíram no chão se contorcendo. Todo mundo caiu na gargalhada. Deputado e sobrinho candidato a vereador se afastaram para rir à socapa, sem ofender a viúva.
Conseguiram endireitar a urna. Começaram a jogar terra, esquecendo a caveira nos braços de Zé Caninha. Recomeçaram tudo de novo, cobriram mãe, filho e caixão. Finalmente, jaz em paz Quebra Pote.


15 de novembro de 2017

O crime de Vargas e o crime de Prestes



É muito característico de pessoas de credos radicais alardear crimes alheios, mas silenciar os próprios e os de suas facções.
É o caso, por exemplo da extradição de Olga Benário, de um lado, e de outro o assassinato de Elvira Cupello Colônio, cujo nome verdadeiro era Elza Fernandes.
O crime alegado de Getúlio Vargas e seu chefe de polícia, Filinto Müller, foi o de extraditar a mulher de Luiz Carlos Prestes, comunista e judia, para a Alemanha, onde morreu em campo de concentração nazista. Portanto, Vargas seria culpado do assassinato de Olga Benário.
Olga, ativista comunista alemã, havia sido enviada pela União Soviética para controlar Prestes e, para disfarce e melhor cumprimento da missão, se casou com ele.
A história silenciada pelos comunistas é a seguinte:
Após o fracasso da Intentona Comunista, perseguição da polícia de Vargas ao PCB e prisão de seus membros, Luiz Carlos Prestes suspeitou que Elza - amante de Antônio Maciel Bonfim, de codinome Miranda, secretário geral do Partido Comunista Brasileiro - tivesse traído o Partido.
Os fatos foram esclarecidos por cartas entre Prestes e Olga, depoimentos de militantes do PCB, acareação entre Prestes e o assassino, e confissão deste.
A suspeita de Prestes se devia a que Elza, que então tinha entre 16 e 17 anos, e era semianalfabeta, não fora torturada pela polícia.
Prestes, com consentimento de Olga, ordenou o assassinato de Elza.
Em 20 de fevereiro de 1936, Elza foi estrangulada por um militante do PCB, Francisco Natividade Lira, de codinome Cabeção, que usou a corda do varal da casa do bairro de Guadalupe, Rio de Janeiro, em cujo quintal o corpo foi enterrado
O crime de Getúlio é alardeado, mas o assassinato de Elza é sepultado em silenciado profundo.

12 de novembro de 2017

A Síndrome de Rapa Nui



A Síndrome de Rapa Nui

Sebastião Imbiriba
Revisto e republicado em 2007 e 2017 no blog Reflexões www.imbiriba.blogspot.com
Publicado em 2002 no Jornal de Santarém e Baixo Amazonas

Rapa Nui, nome nativo da ilha de Páscoa, é caso emblemático do destino dos desatinados que usam a Natureza de modo inconsequente. Não há dúvidas quanto à existência, nessa ilha, de árvores e palmeiras que serviram como trenós, trilhos, roletes e alavancas necessários ao transporte e levantamento de portentosas estátuas, os gigantescos Moais de pedra.
A população dessa pequena ilha isolada do resto do Mundo, no centro do Pacífico do Sul, a meio caminho entre o Chile e a Polinésia, e a mais de dois mil quilômetros da população mais próxima, cresceu e exauriu seus recursos naturais além da capacidade de auto-sustentação. O resultado foi a devastação da floresta até a última arvore e o esgotamento da terra desnuda pela erosão dos ventos e da chuva.
A luta pela sobrevivência, num ambiente exaurido, derivou para a mortandade. A população, que alguns pesquisadores estimam ter alcançado dez mil habitantes, foi quase totalmente dizimada. Quando o navegador holandês, almirante Roggeveen, a encontrou no Dia da Páscoa de 1722, não havia mais do que uma ou duas centenas de pessoas na ilha.
Era uma população isolada na vastidão do Pacífico. Embora seus ancestrais fossem navegadores, bons o suficiente para encontrar e povoar aquela ilha remota, a população remanescente não podia navegar mais do que uns poucos metros além da praia com seus botes construídos com desconjuntados pedaços de madeira antiga e desgastada, amarrados com fibras e sem calafeto. Não havia, naquela ilha, os materiais necessários à construção de barcos de longo curso.
Sem terra agricultável e sem barcos pesqueiros, não havia como alimentar os habitantes. As conseqüências da Síndrome de Rapa Nui nos fazem temer a exaustão dos recursos naturais da Terra, nos aconselham parcimônia e prudência no uso deles, além de muito esforço de pesquisa científica para que possamos julgar e agir com objetividade e conhecimento de causa, para encontrar substitutos às matérias primas esgotadas e alternativas aos atuais modos de viver e consumir. Uma excelente reconstituição de fatos pré-históricos na ilha de Páscoa é desenvolvida por Jarred Diamond in Colapso, Editora Record, 2005.
Em nossa vida como indivíduos, nações ou a própria espécie humana temos, a cada momento, de priorizar valores em decisões, por vezes, muito difíceis. Como a do cirurgião ao decidir se salva a mulher em complicado trabalho de parto ou a criança por nascer. A Humanidade tem de tomar o mesmo tipo de decisão com relação às florestas e outros recursos naturais, diante do risco de perder valores tão importantes quanto elas.
Uma dessas decisões é a que hoje (2007) se discute: a proposta do Presidente dos Estados Unidos da América de permitir que a indústria madeireira abra grandes aceiros nas florestas públicas daquele país, com dois objetivos: evitar a propagação de grandes incêndios, o que seria útil para as próprias florestas e aumentar a produção madeireira o que seria benéfico para os desempregados e para os consumidores, além de diminuir a poluição do ar e propagação dos incêndios para áreas urbanas.
Diante da imensidão das queimadas em todo o Brasil, em especial na Amazônia e no Cerrado Central, decorrente da pequena umidade do inverno setentrional deste 2017, cabe perguntar se não seria o caso de adotar, pelo menos experimentalmente, tal medida em nossas florestas.
A discussão, amplificada pela mídia, no entanto, se processa muito mais no plano emocional. Isto se deve ao profundo sentimento de perda que todos sentimos por tão grande destruição. O debate deveria estar em plano científico, objetivo, para que possamos mensurar os fatores a favor e contra e avaliar até que ponto essa medida seria útil e eficaz, ou se, por outro lado, não seria um passo adiante a caminho da manifestação da Síndrome de Rapa Nui.
Pode a Humanidade sobreviver sem a floresta? Não somente é provável que possa, como é certo que a vida na Terra tenha existido alguns milhares de anos sem elas. Nos dias de hoje, em algumas regiões do Ártico e do Saara, existem populações sem florestas.  Durante os milhares de anos dos Períodos Glaciais, grande parte do Mundo esteve privado de florestas, pelo menos as do tipo que encontramos na Amazônia.
A floresta é bem de alto valor para a Humanidade, mas talvez não seja necessidade absoluta imediata como é, por exemplo, o ar que respiramos. A destruição do ar pela poluição provoca imediata sufocação, graves doenças respiratórias, desconforto insuportável. O mesmo não ocorre ao se derrubar uma árvore ou destruir a floresta inteira cujo efeito só será sentido muito depois. É essa falta de resposta imediata da Natureza, ou de percepção instantânea de seus efeitos pelo Homem que permite a este continuar a se ariscar a provocar enorme catástrofe.
Um dos sintomas da Síndrome de Rapa Nui que se apresenta como séria ameaça a todo o Nordeste brasileiro, tornando inútil o grande esforço de transposição do Rio São Francisco, é a progressiva e crescente diminuição de sua vasão, e de seus afluentes, em decorrência do intenso desmatamento em toda a bacia desse rio de integração nacional.
Podemos, portanto, concluir que embora sejam de extrema utilidade, não só pelo que representam e produzem por elas mesmas, mas pela biodiversidade que suportam, a Humanidade poderia sobreviver sem florestas. O que não sabemos é por quanto tempo até o inexorável advento da grande e global Síndrome de Rapa Nui.